“Rindo, castigam-se os costumes” – princípio do dramaturgo português Gil Vicente (Humanismo, séculos 15 e 16).
Estou finalmente vendo a novela “Roque Santeiro” na íntegra. Quando foi exibida pela primeira vez, na Globo, em 1985/86, minha vida era bem diferente, e eu não tinha tempo de acompanhar a trama de Dias Gomes, escrita por ele e por Aguinaldo Silva (a maioria dos capítulos).
Os contemporâneos da novela devem se lembrar bem do sucesso que a história fez, dos altos índices de ibope alcançados, principalmente porque, naquele momento, a censura já afrouxara seus laços e a chamada Nova República falava de um “novo Brasil”. Lembro até hoje de uma noite em 1975, quando o eterno Cid Moreira, no Jornal Nacional, anunciou que Roque Santeiro (a primeira versão na qual Betty Faria era Porcina da Silva e Francisco Cuoco fazia o papel título) não poderia ir ao ar, exatamente porque havia sido censurada. Pra tapar o buraco, a Globo enfiou um compacto de Selva de Pedra, enquanto Janete Clair escrevia “Pecado Capital” a toque de caixa, aproveitando quase o mesmo elenco da novela censurada.
Bem, dez anos depois, os personagens de Asa Branca puderam entrar nos lares brasileiros. E entraram com tudo! Agora, Roque Santeiro era interpretado por José Wilker; Regina Duarte era Porcina, numa interpretação exagerada, caricata, debochada e divertida da “viúva que foi sem nunca ter sido”. Lima Duarte dava vida a Sinhozinho Malta, que detestava ser chamado de “coronel”, embora o fosse sem tirar nem pôr.
Não quero contar a história da novela aqui: escrevo motivado pela atualidade da trama. Como deixar de pensar na cidadezinha de Asa Branca como retrato de muitos lugares deste imenso Brasil? Como deixar de refletir sobre aquelas pessoas humildes e ingênuas que se deixam levar por mitos e que são controladas pelos mais “espertos” (no pior sentido do termo)? Roque Santeiro, sob esse prisma, continua atual, 40 anos depois.
A gente se diverte com tantos atores e atrizes bons e talentosos do elenco. Todos, sem exceção, estão muito bem em seus papéis ora dramáticos, ora cômicos! Até Fábio Junior interpretando Fábio Junior está ótimo!
Claro que o casal central, os Duarte – Regina e Lima –, roubam a cena com seu comportamento duvidoso. São caricatos, engraçados, românticos, libidinosos, temperamentais e nem sempre honestos. Dão um show quando estão separados e principalmente quando dividem a cena! Maravilhosos! Do ponto de vista do telespectador, só lamento que Francisco Cuoco não tenha querido retomar o papel de Roque: nada contra Wilker, mas acho que o outro tinha muito mais “química” com Regina do que o Roque de 1985. E era mais bonito também.
O elenco é estelar: além dos citados, Armando Bogus (o marido opressor que, lógico, será traído pela mulher que ele faz sofrer com um ciúme doentio, interpretada por Cássia Kiss); Yoná Magalhães como uma vedete e dona da pensão onde muito da trama se passa; Paulo Gracindo como o padre conservador; Eloísa Mafalda como a esposa puritana do prefeito e líder das beatas; Ary Fontoura como o tal prefeito, fraco e manipulado pelo Sinhozinho Malta de Lima Duarte; Lucinha Lins como a eterna namorada de Roque… e por aí vai. Todos muito bem em seus papéis.
Eu comentava com uma amiga que Roque Santeiro está repleta de atrizes muito bonitas – Yoná, Regina, Lídia Brondi, Ísis de Oliveira, Lucinha Lins, Elizangela, Patricia Pillar –, mas não traz nenhum homem que esteja à altura delas.
Trilha sonora deliciosa, composta somente por músicas nacionais (mesmo porque, naquele universo, não caberiam canções estrangeiras).
Lá pelas tantas, o personagem João Ligeiro, vaqueiro interpretado por Maurício Mattar, dispensa a namorada Dondinha (Cristina Galvão) porque quer ser “santo como Roque”. Bem, sua recusa a uma mulher apaixonada é interpretada com toda a maldade – e o moço começa a ser conhecido na cidade como “frutinha”, como “aquele que não é chegado”, e, logicamente, cai na boca do povo. Cada um que fala de João Ligeiro dá uma desmunhecada, gesto conhecido para se indicar que uma pessoa é homossexual e, claro, afeminada.
Isso não teria lugar, hoje, por causa do tal do politicamente correto, mas penso que, embora seja bacana combater-se o bullying, não se pode negar que ele exista. E não vejo nada de mais em se mostrar o sofrimento da personagem diante do preconceito de gente atrasada que depois vai engolir suas ofensas.
Conta-se que, para viver a viúva Porcina, fizeram testes Fernanda Montenegro, Vera Fisher, Marília Pera e Regina Duarte. Fica difícil, hoje, imaginar outra atriz que não Regina nesse papel.
Como já escrevi acima, estou me divertindo muito com os diálogos e as situações da história. A novela é engraçada, mas também convida a pensar que não mudamos tanto nesses anos todos – principalmente nos rincões mais afastados dos grandes centros. Asa Branca acaba sendo uma miniatura do Brasil.
Acabei de checar e, por um desses caprichos do tempo, escrevo no dia em que faz exatamente 39 anos que o último capítulo foi ao ar – em 21 de fevereiro de 1986!
Ah, e temos os nomes dos protagonistas! “Porcina” é um adjetivo referente a porco (sinônimo de “suína”), enquanto “Malta” (Sinhozinho Malta) pode ser entendido, entre outras possibilidades, como “súcia”, “bando”, o coletivo de “pessoas de má índole”, segundo o dicionário.
Sátira pura aos coronéis e poderosos que (ainda) manipulam este País e sua gente humilde!
2 Comments
Ah, que delícia poder ler e reler uma Crônica sobre a novela “Roque Santeiro!” Lembro-me bem dessa novela, tenho alguns DVDs com episódios sortidos. Concordo plenamente que Francisco Cuoco ficaria melhor no papel de Roque Santeiro.
Olá Prof Vitor
Excelente crônica. Roque Santeiro marcou época. Outros tempos. Mas, será que o Brasil mudou?
Acho que não. As .azelas continuam as mesmas, só os personagens mudaram.
Mas que delicia de novela!!!!! E que atores !!!!!
Parabéns pela belíssima crônica.