

“Não entendo, apenas sinto; tenho medo de um dia entender e deixar de sentir’ – Cecília Meireles.
Coincidentemente (não acredito muito em coincidências!), dois amigos meus de longuíssima data me mandaram, no mesmo dia, via WhatsApp, mensagens relativas à infância.
A primeira delas trazia um desenho do Pato Donald, lendo, ouvindo um rádio, ao lado de sua bicicleta, e dizia: “A magia da infância não acontecia porque você era criança. Acontecia porque você vivia o presente”. Acho que tem a ver com a questão mesmo de vivermos o hoje com intensidade, aproveitando cada momento que nos faz felizes, reconhecendo que, embora haja problemas, há muito com que nos alegrarmos se, por exemplo, temos saúde. Viver o presente significa também buscar prazeres simples e quotidianos, aqueles para os quais às vezes não damos muita atenção, mas que são os pilares das nossas vidas.
Passear com o cachorro, para quem adora seu animal de estimação; ouvir suas músicas favoritas; ir pra cama na companhia de um livro interessante, mesmo que se caia no sono após duas páginas; comer um pedaço de bolo com uma pessoa querida, aquela que nos compreende e não nos julga; ler uma mensagem de alguém que nos é importante e que só não está ao nosso lado porque, naquele momento, não pode estar. E por aí vai.
A maioria das pessoas não consegue enxergar o que possuem de bom na vida, e isso é triste. Falta-lhes, ao que parece, um pouco dessa inocência para que observem mais o presente do que o futuro, mais o que conquistaram do que lhes faltar conquistar. Talvez a frase de para-choque de caminhão não seja tão simplória assim: “Não tenho tudo o que amo, mas amo tudo o que tenho”. Acho uma grande coisa ser feliz com o que se tem, sem uma ambição desmedida que só leva à cegueira e à angústia de se buscar mais e mais, além de uma eterna insatisfação.
A outra mensagem, do outro amigo, vinha com uma criança jogando bola e dizia: “Tanta vontade de crescer para depois descobrir que a infância é a parte mais bonita da vida”. Bem, aquele período tem, sim, sua beleza e encanto – a gente só precisa tomar cuidado para não o idealizar demais e ficar olhando para o retrovisor insistentemente. Claro que o bonito da infância é justamente a inocência de não se pensar no amanhã, a ingenuidade de não se preocupar com os problemas do mundo dos adultos – suas guerras, sua mesquinhez, seu egoísmo, sua crueldade etc. Muito da felicidade da criança pode, sim, ser explicada por esse olhar de quem não pensa demais no que vê. A filosofia oriental diz que a depressão olha muito para o passado, enquanto a ansiedade olha muito para o futuro. A “receita”, então, seria vivermos o presente sem muitos questionamentos – viver com o coração!
Ao escrever isso, lembrei dos versos de Alberto Caeiro, nos quais o heterônimo de Fernando Pessoa fala exatamente da inocência que a gente vai perdendo com a maturidade e com o passar do tempo. Caeiro, o mestre dos outros heterônimos, ensina que pensar pode deturpar a visão, que a felicidade está nas coisas simples da vida, pois a verdade está na sensação que as coisas do mundo nos provocam. Ele crê que as coisas se explicam por sua própria existência, sem a metafísica, sem a subjetividade. Admira o novo em tudo o que encontra.
A mensagem, para mim, é clara: guardemos um pouco da inocência da infância, sem perdermos a maturidade inevitável – prestemos atenção aos nossos sentimentos, sem deixarmos totalmente de lado a razão que nos guia por este mundo tão complexo!
E sinto vontade, neste momento, de compartilhar com o leitor aqueles versos tão bonitos do poeta português…
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza, não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro – “O guardador de Rebanhos”
3 Comments
Linda Crônica, Professor!
“Tanta vontade de crescer para depois descobrir que a infância é a parte mais bonita da vida”.
“A magia da infância não acontecia porque você era criança. Acontecia porque você vivia o presente”.
Frases lindas – por isso digo: vamos aproveitar cada dia, cada momento, e sempre lembrarmos da nossa infância.
Olá Prof Vitor
Belas reflexões sobre a vida, finalizadas com Fernando Pessoa. Brilhante!!!!
Parabéns
Muito lindo Tim, sempre olhar o lado bom de tudo, sem estacionar no passado, perfeito, temos tanto, ainda, à aprender, amei, obrigada.