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A BRUXA, O ESCRITOR E A TORTA ENCANTADA

Era uma vez um grande reino do norte, onde vivia uma bela e terrível mulher (a beleza pode muito bem ocultar a maldade), tida por muitos como uma verdadeira bruxa. Havia também um jovem que não se conformava com as maledicências daquela senhora, a qual a todos infernizava, propagando o ódio e a intolerância. Há alguns dias, a bruxa se foi para sempre – e os que ficaram no reino não guardam saudade.

Anita Bryant foi uma mulher bonita. Em 1958, aos 18 anos, ganhou a concurso de Miss Oklahoma. Tornou-se, logo depois, uma estrela no show business, chegando até mesmo a entreter militares no exterior com o ator Bob Hope. Ela até cantou no Super Bowl de 1971. Como gozava de prestígio, cantou tanto na convenção dos Democratas quanto na dos Republicanos, além de se apresentar na Casa Branca e no funeral do presidente Lyndon Johnson.

O auge de sua fama se deu quando ela se tornou a cara da Florida Citrus Commission – algo como Comissão dos Produtores de Cítricos da Flórida. A mulher começou a aparecer em comerciais que destacavam o estado, com o slogan: “Café da manhã sem suco de laranja é como um dia sem sol”. Depois disso, veio a decadência da cidadã.

Quando Miami, em 1977, promulgou uma lei que criminalizava o ódio aos gays, ela liderou a oposição àquela lei. Como morava em Miami, Bryant fundou a “Salvem Nossas Crianças”, uma organização anti-homossexuais e um dos primeiros grupos a dizer que homossexualidade e pedofilia eram a mesma coisa, ou seja, para a mulher e sua turma, todo homossexual era um pedófilo.

Por causa disso, as vendas de sucos caíram e a comissão dos cítricos cancelou o contrato com Anita. Ela, por sua vez, queixou-se de que estava sendo discriminada. Vejam só! Durante toda a sua vida pública, Bryant foi sinônimo do ódio ao movimento LGBTQ+. Chegou a afirmar: “O que essa gente realmente quer, escondida atrás de frases aparentemente corretas, é o direito legal de propor aos nossos filhos que esse é um modo de vida alternativo e aceitável”. Ela ainda levou sua organização para os estados de Minnesota, Kansas e Oregon. A mulher era incansável em sua cruzada contra os gays e usava de toda a sua fama e beleza para alcançar seus objetivos.

Nem mesmo com uma neta lésbica, Anita se arrependeu do que falou e continuava falando. Não se comoveu, mesmo tendo em sua família uma pessoa homossexual, o que poderia fazer com ele revisse seus conceitos. Quando completou 21 anos, a neta lhe contou sobre sua sexualidade, ao que a avó respondeu: “A homossexualidade é uma ilusão inventada pelo demônio”.

Como o ódio sempre gera mais ódio, Bryant fez vários inimigos. Um deles protagonizou uma cena que ficou para a história da TV americana, bem como para a história do movimento gay naquele reino do norte. O ano era 1977. A cidade, Des Moines, no Iowa. Tom Higgins, um escritor e ativista – ao qual atribuem a criação do slogan “Orgulho Gay” –, estava presente em uma das numerosas conferências de imprensa de Anita. Sala cheia, a mulher falando suas barbaridades, a TV transmitindo tudo ao vivo e em cores.

A certa altura, cansado de ouvir tanta baboseira, o moço aproximou-se e esfregou uma torta de banana na cara de Bryant, em rede nacional. “Pelo menos, foi uma torta de fruta”, ela declarou. Depois, caiu no choro… mas nem assim se emendou e procurou rever seus conceitos. O New York Times escreveu em seu obituário que o termo “fruta” (“fruit”) era ambíguo: Anita pode ter feito alusão à própria banana da torta ou ao epíteto nada elogioso com que os gays são chamados.

Quais seriam as razões de tanta homofobia por parte da mulher? Conservadorismo? Ignorância? Fanatismo religioso? Maldade disfarçada de ética? Tudo isso junto?

Anita morreu agora, com 85 anos. Nas redes sociais, houve muita gente se manifestando e até mesmo comemorando(!) sua passagem. Um dos internautas postou: “Foi tomar suco de laranja no inferno!”.

Pois é…

Abaixo, o vídeo da torta na cara da mulher:

Anita Bryant’s Pie to the Face – www.NBCUniversalArchives.com – YouTube

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

3 Comments

  1. Professor, mais um aprendizado lendo esta Crônica! Na frase: “há alguns dias, a bruxa se foi para sempre – e os que ficaram no reino não guardam saudade”, me faz lembrar de uma política aqui da cidade! Não levou uma torta na cara, mas deixou o cargo.

  2. Clarice keri disse:

    Estou aqui imaginando que ela passou a vida odiando e incomodando os gays, o coração dela era de pedra, que triste, você descreveu muito bem essa mulher horrorosa, obrigada pelo texto ótimo.

  3. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Excelente crônica, com tema recorrente: a praga da ignorância. Ela “ataca” indistintamente todos.
    Famosos e não famosos em qualquer país.
    Lamentável
    Parabéns

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