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A PROFESSORA

– Hoje, vou apresentar para vocês duas poetisas muito importantes da língua portuguesa. Vamos estudar um soneto de uma – lembrando que se entende por “soneto” uma composição fixa de 14 versos, divididos em dois quartetos e dois tercetos – e um poema com versos livres da outra. Copiem os poemas que porei na lousa, eles são curtos. Depois, explico o que vou querer de vocês.

A voz forte e firme da professora inunda a sala nesta manhã quente de março. Primeiras semanas de aula, conhecida dos alunos desde anos anteriores, ela tira seus óculos e mira a turma com seu olhar penetrante e sério. Quando vira as costas para escrever no quadro negro, o silêncio é reinante. Ela sabe impor respeito.

Deve ter o quê? Uns 35 anos no máximo. Os meninos sempre a olharam e olham com curiosidade e cobiça. Como é bonita! Sempre de vestido ou saia por baixo do avental, cabelos pretos contrastando com os olhos azuis penetrantes que iluminam a sala. Isso: seus olhos iluminam a sala!

Na terceira fileira, a menina tímida presta atenção à professora e sente algo estranho pela primeira vez. Não, não é a simples e pura admiração que sempre sentiu nos anos anteriores, desde o primeiro ano até agora, no terceiro, às vésperas do vestibular. É mais do que isso. Sente alguma coisa no peito que ela não sabe explicar e que nenhum menino jamais lhe despertou. Nem o mais bonito da sala. Não consegue tirar os olhos da professora e só acorda de seus pensamentos quando a amiga de trás lhe pede emprestada a caneta vermelha para copiar o título do primeiro poema.

Automaticamente, a menina passa a caneta para a amiga, sem olhar para trás, sem tirar os olhos daquela mulher tão bonita. Quem a visse assim pensaria que ela estava atenta aos versos na lousa, mas eles só serão importantes pra ela mais tarde. Não agora.

E a menina tímida, com seu uniforme de escola e seu cabelo preto, preso num rabo de cavalo, fica ainda mais pensativa. Num primeiro momento, pensa no respeito que sente pela figura da professora – competente, inteligente, uma intelectual que escreve sua tese de doutoramento, embora a menina não saiba muito bem o que seja isso. Ouviu falar nos corredores da escola. Ouviu falar também que a professora iria embora para Portugal, que este seria o seu último ano neste colégio. Entre adeuses de alunos e professores, quem ficará?

A admiração vai crescendo – não é admiração. Sente um calor pelo corpo, mas também não é calor. O que ela está sentindo? Um carinho enorme pela professora cujas aulas lhe são tão bonitas e agradáveis. E, de novo, não é só carinho. É carinho também! Quanta coisa a menina experimenta sem sair de sua cadeira, sem se levantar, sem conhecer a vida.

A professora termina de escrever os textos na lousa. Vira-se com calma, com a delicadeza e com a firmeza que sempre demonstrou, e senta-se, enquanto a classe copia os versos. Quando todos terminam, ela se levanta e começa:

– Acompanhem comigo:

EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber por quê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

-O que acharam? Classe, esse soneto é de uma autora portuguesa chamada Florbela Espanca – e a professora nota alguns risinhos contidos por causa do sobrenome inusitado e engraçado da poetisa. Florbela é uma escritora do século 19, nascida em Portugal. Nasceu fora do casamento, pois sua mãe não podia ter filhos. E, se vocês acham que isso não tem importância, tentem imaginar o que significava esse fato há quase dois séculos. Na verdade, sua infância já se mostrará bem peculiar para a época: Florbela será criada pelo pai, pela esposa dele e por sua mãe biológica.

A classe mostra surpresa. Não esperavam por isso. A professora prossegue:

– Quando Florbela tinha três anos, nasce seu irmão, o ser humano que melhor a compreendeu na vida, seu grande amigo, de cuja morte a poetisa nunca conseguiu se recuperar. Tomada de profunda depressão pela perda desse irmão, ela se suicida em 1930, com apenas 36 anos de idade. Podemos dizer que seus versos são um misto de paixão, dor, emoção, ânsia e saudade, sentimentos que vão dar corpo à sua obra, retratando o íntimo da escritora, ao mesmo tempo mostrando toda a força de sua alma e o vazio que sentia. Muita gente acha que sua poesia é triste demais, mas nunca se esqueçam de que a beleza pode ser encontrada na tristeza também. Quero que vocês sintam a intensidade dos versos. A intensidade e a paixão são fundamentais se se quer viver a vida em sua plenitude. Não vivam pela metade, não vivam superficialmente.

Faz uma pausa para examinar a reação da sala. Os alunos prestam atenção, todos quietos. Pergunta se alguém não entendeu o soneto, se há dúvidas, se alguém quer perguntar alguma coisa. A menina tímida tem muitas perguntas, os versos e as palavras da professora a tocam de maneira profunda, de um modo que não sabe explicar. Mas, como só pode acontecer, fica quieta, em silêncio, não se atrevendo a levantar a mão delicada com as pequenas unhas pintadas de rosa.

– Leiam comigo o segundo poema então – era a professora novamente.

LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

– Agora, estamos com os versos da brasileira Cecília Meireles. Cecília nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Viveu mais do que Florbela, mas morreu muito cedo também – com apenas 63 anos. A escritora, professora e conferencista é um dos nomes mais importantes da nossa literatura. Cecília ficou órfã de pai pouco antes de nascer e perdeu a mãe antes dos três anos de idade, sendo criada pela avó. Por conta disso, dizia que a solidão lhe era muito familiar, conseguindo tirar proveito dessa condição e criando um universo próprio. Para completar o quadro, seu primeiro marido se suicida, deixando-a com três filhas pequenas.

Faz uma pausa. Agora, os olhos dos alunos mostravam a surpresa por causa daquela breve e impactante biografia.

– Ela soube transformar tudo isso em arte. Escreveu poemas e crônicas belíssimos. Infelizmente, Cecília morre de câncer em 1964, com 63 anos, como já lhes disse. Uma pena! A lição que fica? Não desanimem perante vida, nem mesmo diante dos maiores obstáculos.

Enquanto os alunos tecem comentários com seus colegas próximos, a menina tímida mergulha nos versos copiados no caderno. Relê o primeiro poema, depois o segundo, e sente uma tristeza muito grande. Para e olha para a professora. Quando o olhar desta cruza com o seu, a menina abaixa cabeça, envergonhada, vermelha por ter sido pega nesse ato. A professora pergunta:

– Juliana, gostou das poesias? Muito tristes?

A menina tímida diz que sim, mas diz que gostou muito. – Poemas lindos, professora.

– Muito bem! Prestem atenção aqui! Não vou me aprofundar na análise dos textos porque é exatamente isso que eu quero que vocês façam. Vocês vão traçar um paralelo entre o soneto de Florbela e os versos de Cecília que estão na lousa. Trabalho individual para a semana que vem. Vou somar a nota deste trabalho com a nota da prova e tirar a média – como sempre faço. Quero que analisem a temática, a construção dos versos e das estrofes, o modo como cada uma aborda o tema em questão – na opinião de vocês, há mais diferenças ou semelhanças entre os dois textos? Sempre considerando esses poemas, as autoras mais se aproximam ou se afastam? Quais as figuras de linguagem presentes? Fui clara?

A menina tímida, mergulhada em seus pensamentos, começa a se conhecer um pouco mais. Talvez fosse a hora de se olhar no espelho e de não se recriminar ou se condenar. Talvez fosse a hora de crescer, de sair do casulo em que vivera até então. Talvez fosse o momento de deixar de ser menina. Constata que aqueles versos lhe causam um súbito medo. E se sua vida fosse uma eterna procura por alguém que “viesse ao mundo e nunca a encontrasse”? E se ela, como a lua, tivesse fases e desencontros? Não é só admiração que sente pela professora. Oh! Não é!

Sentada em sua cadeira, ela experimenta nesta aula alguma coisa indizível e indescritível por aquela professora e por aqueles poemas. Começa a entender por que aqueles meninos não significam nada pra ela. Nem o mais bonito da classe!

O impacto daqueles versos, as vidas daquelas escritoras, a explicação daquela professora tão bonita, a literatura entrando definitivamente em sua vida…

Alguns diriam que ela havia, finalmente, descoberto a paixão. Alguns diriam que ela havia acordado para o melhor da vida. Causa e efeito!

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

3 Comments

  1. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Belíssima crônica. Lírica é cativante
    Sensações, sentimentos e emoções que nos acometem ao despertar para a vida
    Parabéns.

  2. Professor, mais uma autora que passo a conhecer! Sem sombra de dúvidas, sensações que nos fazem refletir! Ali ela descobriu a paixão através dos poemas. E sim, ela acordou para o melhor da vida.

  3. Baltasar Macias Pereira disse:

    A Literatura entrando na nossa Vida.
    O sentimento desta Aluna pela Professora fica tão forte nesta crônica que conseguimos sentir.
    Bela Crônica que fala de Descobertas na Vida e Poesia de duas grandes Poetas.
    Gostei muito tanto pela história como pelas belas Poetisas.
    👏👏

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