Quem assistiu ao filme “O Jogo da Imitação”, de 2014, estrelado por Benedict Cumberbatch (dirigido por Morten Tyldum e adaptado do livro de Andrew Hodges), pôde conhecer um pouco da história de Alan Mathison Turing, um homem muito importante na vitória dos Aliados na II Guerra Mundial.
Em 1939, uma agência britânica de inteligência chamada de MI6 recruta Alan, um aluno da Universidade de Cambridge, para tentar decifrar os códigos nazistas – entre eles o “Enigma” – que os especialistas avaliavam como invioláveis. Quando desvenda os códigos todos, Alan é alçado à condição de herói.
Em 1952, Alan é vítima de roubo e, ao dar queixa na polícia, acaba revelando às autoridades sua condição de homossexual. Confessa que mantinha uma relação com outro homem, o que era um crime na Grã-Bretanha. Sua revelação o leva a um processo por “indecência grosseira”, além da interrupção do seu trabalhado inovador com computadores e, finalmente, à castração química.
A pergunta que muita gente se fez foi: por que um homem tão inteligente e brilhante confessou sua homossexualidade naquele contexto? O que o levou a admitir sua homossexualidade numa sociedade tão homofóbica quanto a britânica dos anos de 1950?
Bem, de acordo com a pesquisa de uma jornalista do The Guardian, Donna Ferguson, o motivo pode estar no fato de que Alan havia estudado no King´s College, em Cambridge: enquanto a homossexualidade era um crime por todo o país, naquela universidade a situação para os gays era mais tranquila. Durante os anos de 1930, enquanto Alan esteve estudando por lá, muitos professores eram abertamente homossexuais e a universidade era uma verdadeira ilha de tolerância na Inglaterra. Não havia segregação ou violência, todos viviam de modo bastante civilizado, sem medo e sem constrangimento. Os homens falavam de suas vidas sem hesitação e sem intimidação. E essa atmosfera pôde ter dado a Alan Turing segurança para assumir quem ele realmente era. Aquele ambiente universitário fez com que os estudantes tivessem uma outra visão de mundo.
Tendo vivido na universidade dos 18 aos 24 anos, Alan desenvolveu um grande senso de autoaceitação e começou a ver a si mesmo com naturalidade. O problema é que o restante do país não era assim!
Quando os policiais perguntaram a Alan se o ladrão tinha alguma conexão com seu parceiro, Arnold Murray, Turing não viu razão para mentir e esconder sua verdadeira condição e respondeu que sim. Excesso de honestidade? Ingenuidade? Falta de malícia? Talvez tudo isso junto!
A revista australiana DNA lembra que “um estatuto de 1443 exigia que os alunos do King´s viessem exclusivamente do Etton College, promovendo ‘laços’ entre homens que demonstrassem ‘desejos semelhantes’. Essa política acabou criando uma próspera comunidade gay dentro dos muros da faculdade, e, mesmo depois que essa regra mudou, no século 19, muitos garotos brilhantes que pudessem ser homossexuais eram incentivados a se matricularem no King´s, pois, lá, encontrariam acolhimento e aceitação”. Até hoje, sabe-se que o lugar é bastante tolerante com homossexuais.
Nessa história toda, há vários fatos que deixam as pessoas perplexas. O absurdo de a homossexualidade ser considerada crime num país tido civilizado como a Inglaterra (isso até o fim dos anos de 1960); o comportamento de Turing diante dos policiais, sabendo que a sociedade em que vivia era intolerante e homofóbica; o tratamento que um herói nacional recebeu por parte das autoridades inglesas.
Tudo teria sido diferente se Alan se mantivesse, como se diz na gíria, “no armário”? Talvez, sim. Talvez ele não tivesse sofrido tanta violência: foi levado a julgamento e condenado em 31 de março de 1952. Para não ser preso, aceitou a castração química que lhe provocou alterações hormonais com a finalidade de lhe reduzir a libido. Tomou injeções durante um ano, tornando-se impotente e sofrendo formação de tecido mamário. Tudo isso levou Turing a uma profunda depressão e, dois anos depois, ao suicídio, em 07 de junho de 1954 – 16 dias antes de seu 42º aniversário.
Já nos anos 2000, o Parlamento inglês e a rainha Elizabeth II concederam “perdão” a Turing e a outros tantos homens condenados por serem homossexuais. O blá-blá-blá sempre ridículo vindo de políticos e autoridades pernósticas. A Inglaterra é que precisa de perdão pelo que fez a Alan e a tantos outros homossexuais!
Pode ser que Edward Gibbon, historiador inglês do século 18, tivesse uma visão muito pessimista e reducionista, mas não deixava de ter uma certa razão ao afirmar que “a história, na verdade, é pouco mais que o registro dos crimes, das loucuras e das desgraças da humanidade”.
A vida de Alan Turing se encaixa nessa definição.
3 Comments
Olá Prof Vitor
Grande crônica. Intolerância, preconceito, aviltamento e outras mazelas permeiam a caminhada do Homo sapiens através dos séculos nos quatro cantos do mundo. Não há países mais ou menos civilizados. Basta assoprar o pó superficial que a paranoia vem à tona.
Parabéns
Infelizmente esta hipocrisia é viva até hoje,apesar de um pouco maquiada.Destruiram a reputação e a vida de um grande homem.
Professor, não assisti ao filme, pesquisarei, e com certeza assistirei! Triste que a hipocrisia está viva, ainda. E mais, pena que a homossexualidade é vista de uma forma nada agradável. E o blá blá blá sobre ela (a homossexualidade) continua, pena.