Às vezes, a gente se pega lembrando de coisas que estavam lá no fundo da cachola, no fundo do baú. E o fato vem com força, como se quisesse dizer: “Não se esqueça de mim, não! Eu aconteci e faço parte da sua história”. E a gente se pega pensando e refletindo.
Do nada, me lembrei de uma tia de minha mãe – irmã do meu avô – que morava ali perto da Lapa, na Vila Leopoldina. Corria na família a história de que ela não conseguira se casar com o grande amor de sua vida porque ele era negro, e o racismo vigente, unido à autoridade inquestionável dos pais naqueles anos de 1930 e 1940, fizera com que ela não pudesse realizar seu desejo. (Minha mãe, a propósito, enfrentou o mesmo problema na adolescência, anos depois!)
Como era minha tia-avó, sempre fora, para mim e meus irmãos, uma senhora, como senhores eram nossos avós etc. Lembro de ir à casa dela com minha mãe, um sobrado, e ver móveis antigos, livros antigos, coisas antigas. Falo do ponto de vista de uma criança. Nós a visitávamos, e ela tirava as coisas de uma geladeira grande, antiga também, e nos servia pão, geleia, queijo fresco, chocolate batido no liquidificador e bolo de fubá.
Numa tarde, em que eu estava lá com minha mãe, ela começou a me dizer que escrevia muita poesia e que um dia me mostraria seu caderno. Eu tinha uns 12 ou 13 anos e não dava a menor bola para esse tipo de coisa. Meu negócio era futebol. Ainda assim, me lembro bem de um conselho que ela me deu e que me pareceu sem sentido, naquele dia, para um molecão. Suas palavras foram, sem tirar nem pôr: “Quando você gostar de alguém, faça de tudo, de tudo mesmo, para ficar com essa pessoa. Lute sempre pelo seu amor, porque ele pode ser o amor da sua vida, a coisa mais importante da sua passagem por este mundo”.
Ainda que sem dar muita importância, guardei aquilo na memória – ou aquilo “ficou” na minha memória para sempre. Lógico que ela falava com a mágoa de um amor impossível, o amor que o racismo não lhe permitira viver na sua juventude. Mais tarde, claro, foi que entendi aquelas palavras e a importância de se lutar por aquela pessoa que nos dá sentido à vida. Experimentei um amor assim mais de uma vez e, mais de uma vez, não medi esforços para ser feliz. Hoje, mais ou menos com a idade que ela tinha quando me disse isso, talvez eu desse o mesmo conselho para os mais jovens. Talvez. Não sei bem. É que, muitas vezes, a gente olha pra trás e tem a certeza de que, na maturidade, não repetiria certas loucuras e esforços (inúteis) da juventude.
O que conta no amor – cautela ou ousadia extrema? A ponderação ou a loucura por aquela pessoa que nos tira o sono e nos enche o pensamento? Na vida, a gente deve se arrepender somente do que não fez? O que a tia da minha mãe diria?
Houve uma outra lembrança que me veio dentro de um carro de Uber. O trânsito parado, o rádio do motorista ligado numa estação de FM e a música da Isolda na voz do Roberto Carlos – “Outra vez”. Aquela que começa assim: “Você foi o maior dos meus casos/de todos os abraços/o que eu nunca esqueci”, etc. Voei para o ano de 1978, na festa de aniversário da filha de um amigo do meu pai, ali no bairro da Lapa.
Lembro dos adultos ouvindo música na sala, enquanto eu morria de tédio no sofá dos anfitriões. Roberto acabara de lançar seu disco do qual várias músicas fizeram sucesso – entre elas “Amigo”, “Jovens tardes de domingo”, “Cavalgada”, “Não se esqueça de mim” e, claro, “Outra vez”. Lembro que falei para minha mãe que aquela música era chata. Minha mãe sorriu e me disse: “É porque você não viveu um grande amor ainda. Não sabe o que é isso, meu filho. Preste atenção à letra”. Prestei e, na minha falta de sensibilidade, continuei achando uma chatice sem fim. “Você Foi o maior dos meus casos/de todos os abraços/o que eu nunca esqueci (…) esqueci de tentar te esquecer/resolvi te querer por querer/decidi te lembrar quantas vezes eu tenha vontade/sem nada perder(…)”.
O mundo gira! Sim, eu sei que é um chavão, mas, como todo chavão, traz uma verdade. Muitos anos depois, pus fim a um doloroso, longo e intenso relacionamento. Os dois se machucaram muito. Quando tudo terminou, ele me escreveu, na dedicatória de um livro, exatamente essas palavras: “Você foi o maior dos meus casos”, fazendo clara alusão à música. Fiquei lisonjeado; não feliz. Àquela altura, tal declaração já não adiantava mais.
Como não me lembrar de minha mãe e daquele episódio na casa de amigos? Parece que as mães recebem de Deus uma bola de cristal – que pode ser chamada de intuição, sexto sentido ou sabedoria – com a qual são capazes de alertar seus filhos sobre o que virá. “Mães enxergam longe”, dizia D. Marilena.
As lembranças da infância que nos assaltam quando menos esperamos…
4 Comments
Mães enxergam longe, sim! Se formos escrever, renasceríamos muitas vezes, e mesmo assim não conseguiríamos grafar tudo. Quantas lembranças, saudades, por fim, são nossos anjos da guarda. Saudades da minha mãe, que sempre tinha razão. Dona Marilena, que saudades.
Olá Prof Vitor
Bela crônica. Retorno ao tema da maturidade.
Somente a maturidade (idade da razão) nos dá condição de julgar frases ditas, ditados e conversas de outros tempos. Outros tempos!!!!
Parabéns
Tim parabéns, que crônica deliciosa de ler, Tia Lili e Dna Marilene estão orgulhosas de serem lembradas com carinho, obrigada por esse texto maravilhoso.
Que Crônica linda e melancólica,pois a lendo me lembrei de passagens de minha infância, adolescência.
Fiquei imaginando a Tia Maternal dando conselho ao Cronista e sua Mãe também.
Concordo que as Mães Amorosas tem um Sexto Sentido,afinal são as nossas Mães.
Como se diz: “Entrei na história desta crônica como se estivesse em um filme.”
Bela,Bela Crônica