Para toda mudança, chega um tempo, diz a Bíblia.
Chega o tempo de um cansaço profundo, até mesmo das coisas que nos dão (ou nos deram) os maiores prazeres na vida.
Chega um tempo em que nos sentimos mais seletivos e vamos à procura de amigos mais afins, pessoas que têm mais a ver com nossas vidas. E a qualidade é muito mais importante do que a quantidade.
Chega um tempo em que os amigos estão ocupados com suas vidas, mas não nos sentimos sós: seja porque sabemos da sinceridade deles, seja porque livros, filmes e músicas também são totalmente capazes de preencher nossos dias e noites.
Chega um tempo em que não choramos e não sorrimos mais por qualquer coisa ou pessoa – até nossas lágrimas e sorrisos merecem boas razões para serem compartilhados.
Chega um tempo em que aquela pessoa moralista e acusadora, pronta para apontar nossas falhas, revela-se, ela mesma, mais imperfeita do que nós – e descobrimos que seus julgamentos serviam só como disfarce para seus próprios erros. “Cuidado com os moralistas”, minha mãe dizia. “São frustrados e mal-amados, isso sim”.
Chega um tempo em que a felicidade está em coisas que precisamos descobrir – um conto genial de Machado de Assis; uma poesia maravilhosa de Cecília Meireles; uma crônica de Rubem Braga que nos dilacera a alma por causa de sua simplicidade e sensibilidade. E chega um tempo de novos horizontes.
Chega um tempo de assustar as pessoas pela nossa generosidade: elas não estão acostumadas a isso e nos olham com desconfiança, como se sempre quiséssemos alguma coisa em troca. Estamos perdendo a capacidade de enxergar o gesto do outro sem maldade e sem malícia. Comemos do fruto proibido e nunca mais ficamos curados da nossa desconfiança.
Chega um tempo em que o preconceito e o julgamento dos outros parecem não ter importância – o estúpido que fique com sua estupidez, o homofóbico que fique com sua homofobia. Ela não nos diz respeito. E o parente desagradável, que aguentamos por tanto tempo sabe-se lá por quê, é deletado de nossas vidas.
Chega um tempo em que é mais agradável estar com pessoas simples do que com as ditas sofisticadas e chiques.
Chega um tempo de se descobrir o prazer da contemplação, da sabedoria, das experiências vividas, de palavras e conversas divertidas e inteligentes com os verdadeiros amigos. Não um tempo de acertos ininterruptos, pois erramos até a morte, mas, certamente, um tempo em que os velhos erros não terão mais lugar, porque já se terá aprendido com eles.
Chega o tempo da maturidade (infelizmente, não pra todos)!
Chega um tempo, sobretudo, em que o antigo – os velhos hábitos que não nos acrescentam nada – tem de dar lugar ao novo. Outra vez, Cecília: “A vida só é possível reinventada”.
Chega um tempo, enfim, para novos desafios, novas condutas, novos descobrimentos – quando nos sentimos nascidos outra vez para enfrentar a vida que não terminou!
4 Comments
Professor, na frase: “Chega um tempo em que nos sentimos mais seletivos e vamos à procura de amigos mais afins, pessoas que têm mais a ver com nossas vidas”, nela também cabe um boa reflexão. Emocionei-me de um tal forma que não consegui grafar meu comentário quando da leitura. Sim, vida, tempo e maturidade – que Crônica linda e forte. E vamos para os novos desafios, pois a vida não terminou.
Olá Prof Vitor
Maravilhosa crônica. Palavras simples e diretas.
Essa simplicidade resultou na sofisticação da crônica.
Parabéns
Olá Prof Vitor
Maravilhosa crônica. Sofosticada.
Palavras simples e diretas.
Essa simplicidade resultou na sofisticação da crônica.
Parabéns
“A vida só é possível reinventada”.
Grande Cecília.
Realmente a Vida acaba por se reinventar,mesmo quando não pensamos ou queremos mesmo isto,mas fatos vão ocorrendo e mudando sem querer rumos de nossas Vidas.
O melhor de ir Amadurecendo é que realmente vamos selecionando pessoas,livros,filmes e gostos e não querendo agradar a quem na verdade estão nem aí conosco.
Bela Crônica que faz nosso pensamento voar e pensar sobre o que diz a mesma.