“Exagerado! / Jogado a seus pés, eu sou mesmo exagerado(…) – Cazuza (1958-1990)
“Tudo o que é demais sobra e faz mal”, dizia minha avó. Era um modo de ela alertar os netos para o pecado da gula e, às vezes, da luxúria. Adulto, pude perceber que o alerta era muito mais abrangente e sábio do que parecia.
Quando estudamos o “Arcadismo” – que se opõe aos exageros do Barroco –, encontramos o princípio da “aurea mediocritas”, expressão do poeta romano Horácio, segundo o qual “só é feliz quem se contenta em ter posses na medida certa, quem se contenta com aquilo que lhe é necessário, sem aspirar ao desenfreado acúmulo de bens”. Vejam, portanto, que o conselho vai na contramão do que a maioria das pessoas almeja na contemporaneidade. A compulsão pela riqueza e pela aquisição de bens materiais parece ser a tônica de nossos dias. Sem falar na ostentação…
Já fui um homem de excessos e não sei se posso culpar pura e simplesmente minha juventude e minha inexperiência. Tudo era um tanto exagerado de minha parte. Sempre fui e continuo intenso no que faço, falo e sinto. Acho, porém, que mudei um pouco em alguns aspectos. E, sempre que passo por uma experiência muito intensa, preciso me recolher ao fim dela, antes de recomeçar. Dou um exemplo: quando leio um autor muito denso, daqueles que nos marcam pra valer – Machado de Assis, Dostoievsky, Shakespeare, Cervantes etc. – não consigo ir rapidamente para outro livro. Preciso digerir o que acabei de ler, e isso, às vezes, leva dias. O livro me esgotou.
A mesma coisa acontece com filmes: se acabei de ver um grande filme, com uma grande história, uma grande direção e ótimos atores, não tem jeito: vou ficar pensando nele por alguns dias antes de embarcar noutro filme de igual calibre. Posso até ver filmes menores, mas não vou emendar um “filmão” com outro. Não consigo.
Penso nas relações de amor e de amizade. Cada um, claro, tem o seu modo de viver e de sentir. Tenho conhecidos que, na impossibilidade de conviverem bem consigo mesmos, vão emendando um relacionamento no outro. Saem de um relacionamento para outro e conseguem virar a página com uma habilidade espantosa. Não carregam culpa, apenas vão em busca de “uma pessoa melhor”. (E isso faz lembrar do professor Zygmunt Bauman e sua teoria da Sociedade Líquida, na qual nada tem consistência, tudo é efêmero, isto é, líquido!) Observo e fico cauteloso com tanto desprendimento e superficialidade. Gente assim é um tanto calculista e fria.
Entendo que o excesso de parceiros sexuais possa ser um sinal de uma grande insatisfação na cama – aquela procura incessante, sem parada e sem sossego. Não faço aqui nenhum julgamento moral, mesmo porque detesto moralistas e julgadores. Agora, a não ser que o cidadão tenha um fogo inextinguível, transar com muita gente denota um desassossego perigoso.
A promiscuidade do mundo gay é famosa, embora nem todos os homossexuais sejam promíscuos. Há uma grande parcela de preconceito nisso. Precisamos ir com calma! A promiscuidade não é um privilégio dos gays: tem muito hetero que passou a vida mais na horizontal do que na vertical, com centenas de pessoas diferentes.
No campo das paixões (nem digo “do amor”), talvez cometamos os maiores excessos na vida. Há os que acham isso muito bonito, há os que procuram ser comedidos – sem o conseguirem. Se a cor do amor é o azul, o da paixão, segundo muitos, é o vermelho. O vermelho do exagero, da entrega, da felicidade extrema ou do sofrimento insuportável.
Como sou uma pessoa muito intensa, minhas energias se exaurem com facilidade quando me apaixono por qualquer pessoa, coisa ou ideia. Peco, então, pelo excesso e acabo esgotado – às vezes, até arrependido de tanto esforço. Encontrar o meio-termo, a “aurea mediocritas”, tem sido um desafio de vida inteira. Mas somos o que somos e nem sempre podemos mudar nossa essência.
Os excessos na comida – a gula; no sexo – a luxúria; na aquisição de bens materiais – o consumismo; na política, na religião, no esporte – o fanatismo. O cuidado para que o excesso não vire obsessão – esse sentimento que cega e maltrata em todos os setores da vida, não só no amoroso. Como diz o ditado, a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.
O filósofo francês Blaise Pascal (século 17) teria declarado: “Dois excessos: excluir a razão e admitir apenas a razão”. Temos, portanto, de encontrar um equilíbrio.
Coisa nem sempre fácil.
5 Comments
Professor, sempre fui de excessos; na comida, no sexo e no consumismo! Já na política sou polido, enquanto que na religião sou bem ponderado. Às vezes tenho recaídas, e quando acontece procuro me policiar tentando refletir para ir com muito mais calma. Minha mãe dizia: “vai devagar com o andor que o santo é de barro”. A Crônica veio em um momento para que eu possa fazer várias reflexões.
Olá Prof Vitor
Interessante sua crônica. Mostra muito bem a dificuldade de entender o que é e como chegar ao equilíbrio no fazer diário.
Parabéns
Uma excelente crônica contemporânea.Ainda vivo de excessos por isso obrigado pela reflexão.
Falou bonito meu amigo, tudo na vida precisa ter equilíbrio, se não, vira doença, e conhecemos muita gente doente por aí, leitura ótima, obrigada.
“Áurea Mediocritas”.
Quando somos impulsivos e muitas vezes eu o sou, é complicado viver de maneira equilibrada.
A Sociedade do consumo exagerado sempre existiu,mas agora parece muito ,mas muito pior,devido creio eu as Redes Sociais que criam novas necessidades que nem necessárias são.
É um assunto muito complexo.
Imaginaria o que Freud,Jung se vivessem hj o que falariam ou melhor como estudariam este Mundo Atual.