ALAN TURING, O GÊNIO PUNIDO
21 de março, 2025
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NA MARIA ANTÓNIA

Passo em frente à faculdade, onde cursei minha graduação, pelo menos três vezes por semana, quando faço minhas caminhadas pelos lados de Higienópolis. Mas também gosto muito de ir à padaria Bella Buarque, sozinho ou com amigos, além da deliciosa e aconchegante Martins Fontes e da tentadora Holandesa com seus bolos e doces. Minha história com a histórica Maria Antónia e arredores vem de muito longe!

Ver aqueles meninos e meninas, nas calçadas, bares e restaurantes, me transporta imediatamente para o fim dos anos de 1980, quando eu levava o meu curso matutino de Letras no Mackenzie, meu trabalho no Estadão e um casamento gay! Eu era um jovem muito responsável. Passo por aquela rua e vejo a moçada conversando, fumando e bebendo (além da conta!), curtindo sua juventude e os dias que não voltarão mais. (Claro que eles não têm consciência disso.)

Lembro que, quando entrei nas Letras, a fama era de um “curso de espera-marido”, pois a maioria eram mulheres, e, afinal de contas, para que serviam aqueles quatro anos estudando Literatura e Gramática? Qual a utilidade de um curso de Letras? Estudar poesia e análise sintática? Pra quê?

Bem, realmente éramos cerca de 20 ou 25 alunos – sendo que apenas eu e o Pedro éramos os homens da classe. O restante, meninas. Éramos olhados com um certo desprezo pelo pessoal do Direito e das Engenharias, principalmente. Como eram cursos predominantemente “masculinos”, seus estudantes carregavam um certo machismo e, consequentemente, uma certeza de superioridade. E lá íamos nós com nossos Machados, Pessoas e Camões debaixo do braço para as aulas de Literaturas – brasileira e portuguesa –, além de Celso Cunha, Saussure e Othon Garcia, entre outros, para os estudos da língua.

No intervalo, entre as primeiras e as últimas aulas da manhã, íamos pela Maria Antónia comer em algum lugar, somente para sairmos da faculdade. E aí, acontecia uma cena sempre muito engraçada: Pedro ficava na sala de aula, nunca saía para nos acompanhar. Eu saía rodeado de mulheres – às vezes, com cinco ou seis meninas. Passávamos em frente aos rapazes da Engenharia e do Direito e eles ficavam olhando, olhando, como a se perguntarem: “O que é que esse cidadão tem que tanta mulher fica ao redor dele? Como assim? E nós, aqui, sem nenhuma…”. As meninas riam e eu ria junto. Uma vez, nossas suspeitas se comprovaram: uma das meninas da minha classe pegou amizade e começou a namorar um rapaz da Engenharia Civil. Ele não perdeu tempo e lascou: “E aquele cara da sua classe que está sempre cheio de mulher em volta? Deve ser um predador, né? Já deve ter pegado todas”. Ele se deixara enganar pelas aparências.

Ela riu do ciúme e da inveja dele e não disse que eu era gay. Deixou o moço com suas dúvidas e (in)certezas, pois, se ela revelasse a verdade, ele certamente espalharia para muita gente. Naquela época, a coisa ainda era um tabu e não convinha se expor demais. E, por quatro anos, essa cena se repetiu: eu saía com as meninas, e a homarada olhava e ficava intrigada com o fato de eu estar rodeado de mulheres, aliás muito bonitas, diga-se de passagem. Bonitas e inteligentes!

Nesta semana, vi uma cena semelhante: quando eu passava na porta da faculdade, saía um rapaz conversando com quatro moças lindas. Ri comigo mesmo e fiquei me perguntando se ele também causava inveja nos outros que não tinham namorada.

Prossegui na minha caminhada, lembrando de tanta coisa vivida naquela mesma rua e rindo comigo mesmo.

A juventude e suas histórias.

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

4 Comments

  1. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Bela crônica. Ah os nossos verdes anos. Aurora de nossa vida adulta.
    Mas, a natureza nos recompensa. Estamos vivos para poder lembrar e contar
    Como disse Garcia Marques: Viver para contar (em castelhano soa melhor).
    Parabéns

  2. Ricardo Cano disse:

    Ó Maria Antônia, não te cansas de abrigar em tuas calçadas tantas gerações de jovens, ou te alimentas e te renovas com a vibração de esperança de cada coração estudantil?

  3. Guilherme Sardas disse:

    Que crônica leve e envolvente! A gente entra junto na Maria Antônia! Muito bom, Vitão!

  4. A Crônica fez com que eu estivesse ali na Maria Antónia! Nos envolvemos e acabamos “viajando” em muitas coisas. Pessoas, momentos e lugares, muitos lugares.

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