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O ELEVADOR

Tranco minha porta no 23º andar e espero que o elevador chegue. Tenho uma consulta médica nesta tarde chuvosa. Deixo para chamar meu Uber na portaria do prédio. Não estou atrasado. Aliás, estou bem adiantado.

O elevador chega e, como moro no último andar, ele normalmente chega vazio. Entro, aperto a tecla de “Térreo” e vou descendo. Ele para no 14º andar, e o rapaz do 142 entra. É um moço muito bonito – talvez na casa dos seus 18 ou 19 anos. Ele me cumprimenta, eu retribuo o cumprimento e sorrio.

De repente, o elevador para; tudo fica escuro, e luzes de emergência se acendem, provavelmente do gerador do condomínio. O interfone toca, e o porteiro nos pede para ficarmos tranquilos: há técnicos trabalhando no prédio, fazendo a manutenção dos elevadores. Deviam ter nos avisado, reclamo.

Procuro manter a calma. Não gosto de elevadores, mas, com 85 anos, não tenho mais saúde para subir (ou descer) 23 andares. Sorrio novamente para o menino e digo que “só faltava essa!”. Ele faz uma cara de irritação e me pergunta “se vai demorar para conseguirmos descer”. Elevador parado; ainda bem que, momentaneamente, o gerador dá conta e o interfone funciona. O celular do moço toca e ele atende. Pelo que posso entender, é o namorado perguntando onde ele está. Ele explica a situação, despedem-se com um beijo e o moço olha pra mim. Acho bonita essa naturalidade que ele demonstra com o outro na minha frente. Uma geração tão diferente da minha!

Sou ousado e pergunto se era o namorado dele. Ele diz que sim, que estão juntos há cinco meses. Pergunto se ele está apaixonado. Ele me diz que, sendo do signo de água, está sempre apaixonado antes “do outro”. Digo-lhe que não entendo de Astrologia, signos e planetas. Ele ri e me dá uma breve explicação: “Os signos da água são muito sentimentais, muito passionais. A gente sofre muito com isso, o senhor sabe? A gente se apaixona e… ploft! Dá com os burros n´água”.

Digo a ele que não precisa ser sempre assim. Que ele pode ser feliz mesmo sendo muito sensível, bastando que encontre alguém que o respeite e respeite seus sentimentos. Digo que faz parte do amadurecimento saber lidar com tanta sensibilidade. Experiência de vida.

Ele pergunta quantos anos tenho. Quando lhe digo que acabei de fazer 85, ele mostra admiração e diz que estou muito bem para a minha idade. Sorrio, agradeço por sua gentileza, mas sei de minhas limitações e dores (do corpo e da alma), resultados dos anos todos de vida neste mundo. Digo a ele que posso perceber o quanto esse novo namoro está lhe fazendo bem. Posso notar pelo seu semblante e por seu tom de voz ao telefone, mesmo na chamada tão curta entre os dois. Com um sorriso um pouco tímido, ele concorda.

O moço parece perceber que fala com um igual – um igual de outros tempos, mas um igual. Talvez tenha ouvido algum comentário (maldoso ou não) dos outros moradores do prédio sobre o “velho solteirão do 231”. Não sei. Lembro de ter visto esse moço ainda bebê nos braços do pai ou da mãe. Lembro de seus primeiros passos, de vê-lo, nas manhãs de domingo, com a bola debaixo do braço a caminho do jogo com o pai.

Seus primeiros anos de escola, ele de lancheira atravessada no corpo, puxando uma mala com algum super-herói estampado. Cabelos penteados, ainda molhados do banho tomado.
Tenho sido uma testemunha muda de seu crescimento, de sua transformação de criança em homem. Um homem bonito, cujo signo é “da água”, bastante sensível e apaixonado, segundo ele. Devo ter sido um senhor desconhecido, que ele viu de vez em quando, neste mesmo elevador, ao qual não deu muita importância nestes anos todos. Que ideia fazia ele de mim?

Enquanto esperamos o elevador voltar a funcionar, ele me diz que está feliz porque entrou na faculdade de Psicologia da USP, embora o pai quisesse que ele cursasse Medicina. Digo a ele que sou médico aposentado. E mais: seja qual for a profissão, se a pessoa não tem inclinação, que alguns chamam de vocação, não tem jeito. O coração tem que falar mais alto. Ele fica pensativo e talvez tranquilo com sua consciência por não ter seguido o desejo do pai.

Ele me pergunta sobre a minha especialidade. Cardiologista, respondo, embora eu quase nunca tenha sabido lidar com os problemas do meu próprio coração. Isso a gente não aprende na faculdade de Medicina. Ele ri. A vida é a grande escola, mas eu acho que a gente nunca aprende direito. Como diz mesmo o velho ditado português? “O coração vive de enganos e, por mais que o desenganem, quer sempre se enganar”. Ele entende que esse é um bom alerta.

Eu sorrio, e ele fica olhando para mim como a pensar no ditado. Acha-o bonito e diz que vai guardá-lo na memória. Digo-lhe que citar esses ditados é coisa de velho, gente que viveu muito e que aprendeu muito também… não tudo, que isso é impossível. Na juventude, a gente aprende; na velhice, a gente compreende. Ele arrisca perguntar: “Como era no seu tempo?”. Eu entendo a pergunta, mas a resposta seria longa e enfadonha demais para o rapaz.

Respondo simplesmente que era muito diferente. Talvez uma coisa mais romântica, porque mais difícil, vigiada e censurada. Mas também mais sofrida, mais dolorosa, a gente amava e nem sempre podia, sequer, confessar esse amor. Um relacionamento, então, era coisa de outro mundo. Não podia! A não ser que se quisesse comprar uma briga com a família e com o mundo. Esta conversa que estamos tendo, por exemplo, não seria possível.

Quando tudo parecia melhor, veio a Aids. Explico que ele não faz ideia do que foi aquilo. Ele me ouve atentamente e, por instantes, se esquece do elevador parado. Diz que perdeu um tio para a doença, nos anos de 1980. Tio que ele não conheceu, mas do qual os pais sempre falam.

De repente, o elevador se põe em movimento. Para nosso alívio, estamos descendo. Ele se mostra contente; eu estou aliviado porque poderei ainda chegar à minha consulta.

Ao chegarmos ao térreo, ele é recepcionado por um outro jovem muito bonito, que o recebe com um abraço e um beijo rápido nos lábios. A cena me faz lembrar de alguém que eu nunca mais vi, mas que nunca saiu da minha lembrança. Uma saudade muito grande e dolorida.

O rapaz me apresenta ao namorado; apertamos nossas mãos e nos despedimos. Antes disso, dou uma piscada ao meu vizinho e lhe digo, com um sorriso:

– Acho que o signo dele combina com o teu.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

4 Comments

  1. Clarice keri disse:

    Amei, como sempre, achei super bonitinha, história delicada, parabéns e obrigada.

  2. E pensar que no “nosso tempo” as coisas eram bem, mais bem diferentes! Claro, estamos no século XXI e tivemos muitas evoluções. O senhor de 85 anos viveu muita coisa e nós também. Crônica linda que nos faz refletir, pensar e absorver.

    • Angelo Antonio Pavone disse:

      Olá Prof Vitor
      Excelente crônica. Nos faz refletir, pensar e chegar à seguinte conclusão: é preciso ter um cérebro sadio e resiliente para entender os acasos do dia a dia do nossa vida.
      Parabéns pela crônica

  3. Baltasar Pereira disse:

    Eu me coloquei na História e imaginava o Senhor de 85 anos e o rapaz e as surpresas que foram surgindo durante a conversa ou melhor o moço fuçando curioso pela conversa com este Senhor.

    Os sentimentos de alguém já envelhecido,mas lembrando do seu passado,o trazendo para o presente e o rapaz vivendo o presente e tentando entender o futuro.

    Gostei dos conselhos do Senhor bem mais vivido para o Jovem Sonhador.

    👏👏👏

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