UM DISCO E MUITAS LEMBRANÇAS
5 de novembro, 2025
DISTÂNCIAS
19 de novembro, 2025
Mostrar tudo

O VELHO E A CIDADE

Seja bem-vindo!

Em que posso ajudar o moço?

É a sua primeira vez nesta cidade? Ficará apenas alguns dias? Muito bem, então. O senhor pede algumas informações de ordem prática – o melhor hotel, os melhores restaurantes, parques, museus, lugares históricos etc. Não sou a melhor pessoa para lhe informar tudo isso. Posso, contudo, falar da alma desta cidadezinha histórica e das mudanças que presenciei nos meus quase 80 anos vivendo aqui. Desculpe meu jeito, moço. Não tenho estudo.  

Aqui, as pessoas são muito solitárias! Talvez o senhor e a sua família estranhem o que vão ver…

Quer que eu lhe conte um pouco do que aconteceu aqui? Gosto de prosear…   

Dizem que tudo mudou muito, que a Alegria se foi quando a Inveja chegou e trouxe a Hostilidade com ela – as pessoas começaram a não gostar do sucesso de conhecidos e de amigos mais íntimos, e o que era Solidariedade e Cumplicidade foi tomado pelo olhar desconfiado e frio com que as pessoas vigiavam umas às outras pelas frestas de suas janelas. De repente, amigos se tornaram apenas conhecidos; conhecidos se tornaram estranhos; e estranhos se tornaram inimigos. Uma coisa triste, triste! Só o senhor vendo… Elas, a Inveja e a Hostilidade, moram na rua de cima.

Outros moradores antigos culpam a Ambição, o senhor sabe? Eles dizem que, quando a Ambição veio morar aqui, ela contagiou os habitantes de tal forma que ninguém mais se contentava com o que tinha – todos queriam mais e mais, o céu era o limite. Com essa tal Ambição, a Infelicidade e a Insatisfação também vieram. São três irmãs inseparáveis e vivem no próximo quarteirão. O que sei é que ninguém mais valorizava suas casas, seus carros, seus empregos… nem mesmo sua família! Como é que alguém pode ser feliz sendo insatisfeito com tudo o que tem de mais precioso? O senhor me diga!

Há uma história que explica a Tristeza deste lugar porque a Corrupção e a Falsidade – primas-irmãs – compraram uma casa bem na entrada da cidade. Dizem que, com sua promessa de vida fácil, ficaram amigas do delegado, dos policiais, do prefeito, dos vereadores e até do governador do Estado, que nunca deu as caras por aqui, a não ser na época da eleição. Coincidência ou não, depois que a Corrupção e a Falsidade vieram pra cá, muitas obras ou se atrasaram ou foram paralisadas. Estações de trem, escolas, creches, hospitais, estradas, viadutos… o que levava meses para ser entregue passou a levar anos – quando eram entregues, né? E a cidade foi ficando cada vez mais triste e violenta – quem era pobre ficou mais pobre; quem já tinha muito dinheiro ficou milionário.

O senhor quer que eu continue? Posso? Então, vou em frente: como cada um tem a sua versão, há também os que dizem que esta cidadezinha ficou cinza, perdeu a cor, quando a Arrogância e o seu marido, o Orgulho, compraram a melhor casa da rua principal. É! Pro senhor ver: eles não cumprimentavam ninguém, viviam de cabeça erguida, muitas vezes de óculos escuros pelas ruas, sem tomar conhecimento dos outros. Resultado: o povo besta achou aquilo bonito e começou a imitar a dupla. Eu mesmo vi: quando a Arrogância e o Orgulho se mudaram pra cá, a Humildade e a Simplicidade, amigas de infância que frequentaram a escola juntas, foram embora. Parece que se foram para um município a alguns quilômetros, onde se sentem muito mais à vontade. Hoje, o povo daqui não dá nem “bom dia” para o vizinho. Veja que absurdo! O modo de ser desse casalzinho cheio de si, a tal da Arrogância e o tal do Orgulho, está em toda parte. Só afastaram as pessoas umas das outras. Isso, sim! Uma pena, moço!

Agora, se o senhor quer saber a minha opinião – a opinião de um homem velho e experiente, que vive aqui desde que nasceu –, eu conto pro senhor. Esta cidade era uma beleza de lugar. Ah, uma beleza! Gente amiga, honesta, trabalhadora, simples e de bem com a vida. Os turistas também adoravam! O que mudou tudo mesmo, de verdade, foi que, quando essas moradoras vieram pra cá – a Inveja, a Ambição, a Corrupção, a Falsidade e a Arrogância –, o Amor foi embora. É… Ele era o responsável pela Felicidade e pela Alegria das pessoas daqui. Não aguentou e, antes que morresse, o Amor se foi.  

E, olha moço, quando o Amor se vai, tudo o que é de mais ruim toma o lugar dele, viu?

Pode acreditar.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Professor, linda Crônica, ela requer uma reflexão bem profunda. “Quando o amor vai embora, tudo de ruim toma conta”.

  2. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Bela e sensível crônica, sobre as mazelas humanas
    Inveja, ambição, corrupção, falsidade arrogância, quanta força de caráter é necessária para resistir a elas? Oh Lord…
    Parabéns pela crônica

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *