SONETOS I – BOCAGE
13 de fevereiro, 2026
Mostrar tudo

SONETOS II – BASÍLIO DA GAMA

Dou prosseguimento à série de sonetos de alguns dos mais talentosos poetas do Brasil e de Portugal.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

Hoje, trago versos de José Basílio da Gama (1741-1795), escritor brasileiro inserido no movimento árcade, que explorava o bucolismo, a “fugere urbem” (fuga da cidade) como condição essencial para que o homem alcançasse a plenitude, levando uma vida pacata e serena, desfrutando da natureza e vivendo em harmonia com ela.

No soneto em questão, além das características do Arcadismo, o poeta explora temas próprios do Romantismo também: a nostalgia, a saudade, o passado idealizado, a fidelidade amorosa. O eu-lírico relembra um amor da infância, quando encontra a amada, anos depois, já adulta.

O primeiro sinal de descompasso é o fato de que, quando se separam, ele sofre com a ausência dela, embora não saibamos o que a menina sinta com esse afastamento. Ela também sofreu? Ela sentiu a falta do menino por quem estava apaixonada?

Os desencontros do Amor provocados pela Vida.

Ela se vai; ele fica. A separação é dolorosa para o rapaz – dói-lhe “na alma”, como se pode ler.

Por fim, o reencontro e a constatação de que a (agora) mulher não se lembra do namoro de infância – enquanto quem fala no poema se confessa amando a mesma pessoa, talvez com a mesma inocência e com o mesmo amor pueril.

Às vezes, basta isto: basta que encontremos quem amamos para que tomemos consciência de que o Amor está vivo dentro de nós – ele nunca morreu. Ele resistiu ao Tempo, à Distância e ao Silêncio.

Tudo o que guardamos no recôndito da alma um dia ressurge.

Não é incorreto dizer que o Arcadismo já trazia em si as sementes para o florescimento do Romantismo, movimento caracterizado pela emoção e pela subjetividade.

Chama a atenção o costume – principalmente no Barroco e no Arcadismo – de se darem títulos longos aos poemas. Títulos que praticamente resumiam a história que seria lida nos versos.

Vamos a eles!

 

SONETO A UMA SENHORA QUE O AUTOR CONHECEU NO RIO DE JANEIRO E VIU DEPOIS NA EUROPA

 

Na idade em qu’eu, brincando entre os pastores,
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava,
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio à ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu naquela
Fiquei sentindo a dor que n’alma tinha.

Eu, cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro de que sou dela!…

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *