
Inicio hoje uma série de sonetos que quero dividir com os amigos leitores. Semanalmente, vou procurar trazer versos de alguns dos mais talentosos poetas de língua portuguesa – do Brasil e de Portugal.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Algumas composições são bem conhecidas; outras, nem tanto.
Começo com um poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), o maior representante do Arcadismo português e considerado um precursor da escola romântica em Portugal.
No soneto que destaco, Bocage aborda um sentimento muito conhecido por todos e que foi explorado por Shakespeare, em “Otelo”, e por Machado de Assis, em “Dom Casmurro”, para citar alguns poucos exemplos. Um sentimento capaz de trazer dúvidas, incertezas, medos, suspeitas e noites em claro – o Ciúme!
Diz um ditado português que “o ciúme sutil é a desconfiança que se sente da pessoa amada; o ciúme doentio é a desconfiança que se sente de si mesmo”. Óbvio: se não confio em mim, sempre me sentirei insuficiente para a pessoa que eu amo – e sempre pensarei que ela poderá encontrar alguém melhor do que eu. Daí, a insegurança e a tortura.
Podemos sentir Ciúme por qualquer motivo e de qualquer coisa – não necessária e unicamente de uma pessoa.
No poema, Bocage pinta um quadro aterrorizante. Associa o Ciúme a outros sentimentos e descreve o mundo caótico em que vive quem se deixa tomar por essa desconfiança cega e doentia. Em “Otelo”, Shakespeare nos alerta que o Ciúme desmedido, incitado pelo veneno da Inveja, pode levar à morte. Machado nos mostra, em “Dom Casmurro”, que o mesmo sentimento – aliado à fragilidade, à obstinação e à dependência amorosa – pode levar ao desperdício de uma vida inteira.
Já o espanhol Miguel de Cervantes escreve que “os ciumentos sempre olham tudo através de lentes de aumento que fazem as coisas pequenas, grandes; os anões, gigantes; as suspeitas, verdades”.
A ESTÂNCIA DO CIÚME
Há um medonho abismo, onde baqueia
A impulsos das paixões a humanidade;
Impera ali terrível divindade,
Que de torvos ministros se rodeia;
Rubro facho a Discórdia ali meneia,
Que a mil cenas de horror dá claridade;
Com seus sócios, Traição, Mordacidade,
Range os dentes a Inveja escura e feia:
Vê-se a Morte cruel no punho alçando
O ferro de sanguento ervado gume,
E a toda a natureza ameaçando:
Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume…
Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando!…
Mortais, não é o Inferno, é o Ciúme!