ALMOÇO DE DOMINGO
23 de janeiro, 2026
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SONETOS I – BOCAGE

Inicio hoje uma série de sonetos que quero dividir com os amigos leitores. Semanalmente, vou procurar trazer versos de alguns dos mais talentosos poetas de língua portuguesa – do Brasil e de Portugal.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Algumas composições são bem conhecidas; outras, nem tanto.

Começo com um poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), o maior representante do Arcadismo português e considerado um precursor da escola romântica em Portugal.

No soneto que destaco, Bocage aborda um sentimento muito conhecido por todos e que foi explorado por Shakespeare, em “Otelo”, e por Machado de Assis, em “Dom Casmurro”, para citar alguns poucos exemplos. Um sentimento capaz de trazer dúvidas, incertezas, medos, suspeitas e noites em claro – o Ciúme!

Diz um ditado português que “o ciúme sutil é a desconfiança que se sente da pessoa amada; o ciúme doentio é a desconfiança que se sente de si mesmo”. Óbvio: se não confio em mim, sempre me sentirei insuficiente para a pessoa que eu amo – e sempre pensarei que ela poderá encontrar alguém melhor do que eu. Daí, a insegurança e a tortura.

Podemos sentir Ciúme por qualquer motivo e de qualquer coisa – não necessária e unicamente de uma pessoa.

No poema, Bocage pinta um quadro aterrorizante. Associa o Ciúme a outros sentimentos e descreve o mundo caótico em que vive quem se deixa tomar por essa desconfiança cega e doentia. Em “Otelo”, Shakespeare nos alerta que o Ciúme desmedido, incitado pelo veneno da Inveja, pode levar à morte. Machado nos mostra, em “Dom Casmurro”, que o mesmo sentimento – aliado à fragilidade, à obstinação e à dependência amorosa – pode levar ao desperdício de uma vida inteira.

Já o espanhol Miguel de Cervantes escreve que “os ciumentos sempre olham tudo através de lentes de aumento que fazem as coisas pequenas, grandes; os anões, gigantes; as suspeitas, verdades”.

 

 

A ESTÂNCIA DO CIÚME

 

Há um medonho abismo, onde baqueia

A impulsos das paixões a humanidade;

Impera ali terrível divindade,

Que de torvos ministros se rodeia;

 

Rubro facho a Discórdia ali meneia,

Que a mil cenas de horror dá claridade;

Com seus sócios, Traição, Mordacidade,

Range os dentes a Inveja escura e feia:

 

Vê-se a Morte cruel no punho alçando

O ferro de sanguento ervado gume,

E a toda a natureza ameaçando:

 

Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume…

Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando!…

Mortais, não é o Inferno, é o Ciúme!

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

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