SONETOS II – BASÍLIO DA GAMA
21 de fevereiro, 2026
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SONETOS III – OLAVO BILAC

Dou prosseguimento à série de sonetos de alguns dos mais talentosos poetas do Brasil e de Portugal.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

Nesta postagem, visito os versos de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918), poeta, contista e jornalista brasileiro. Autor da letra do Hino à Bandeira, foi um dos principais representantes do Movimento Parnasiano, que trazia o lema da “arte pela arte”: além da objetividade, a poesia descritiva, a valorização do cuidado formal do poema, a busca por um vocabulário precioso, a criação de rimas ricas e a rigidez das regras na composição dos versos.

O poema de 1888, “Nel Mezzo Del Camin”, traz como tema um lugar-comum: a dor da despedida. Vemos um eu-lírico masculino que, nos primeiros versos, descreve o encontro com a pessoa amada. Ele e ela se identificam pelo cansaço – talvez da busca pelo Amor – e pelos sonhos que ambos trazem em suas almas.

 De fato, quando encontramos uma pessoa com quem nos identificamos nesse nível, nossa tendência é nos apaixonarmos. Entre tantos seres, encontramos aquele que nos completa! Da paixão, muito provavelmente, nessas circunstâncias, nascerá o Amor maduro, duradouro, que buscará presença e convivência. Nos versos, as mãos dos amantes ficaram entrelaçadas durante “longos anos”, o que denotava uma união estável e sólida.

Mas, como diz o ditado, tudo o que é sólido se desmancha no ar – e nosso narrador relata a separação que vem, inevitável e inesperada, apesar da intensidade com que os amantes um dia precisaram um do outro.

No afastamento, porém, sua amada parece mais decidida e fria – ela não chora, não parece lamentar a despedida, nem o fim da história de amor que um dia os uniu. Interessante notar que os mesmos olhos, que uma vez uniram os amantes, mostram-se insensíveis quando ela se afasta – pelo menos os olhos dela.

A dor pela separação é exclusividade do eu-lírico que, prostrado, inerte, observa, enquanto sua amada segue seu caminho. Ainda que, no poema, a imagem seja literal – a imagem da estrada –, a metáfora é clara também: quantas relações terminam porque os “caminhos” bifurcam-se e cada um tem que tomar o seu rumo!

Não ficam claros, no poema, os motivos do abandono – lacuna que o leitor pode preencher como quiser.

Por que o amor acaba? Há tantas respostas possíveis!

Quem já amou sabe: interesses profissionais podem afastar os amantes; o desejo ou não de se terem filhos também; gostos; ritmos de vida; negligência; falta de carinho ou de tempo para a relação; a delicadeza que um dia existiu e agora é impaciência; o cansaço, a rotina, as brigas; a segurança excessiva que gera indiferença… tudo isso pode, de um modo triste, separar pessoas que se amaram e foram o motivo da felicidade um do outro.

Depois da contabilidade feita, talvez seja mais fácil entender as razões pelas quais nos apaixonamos do que explicar os motivos pelos quais deixamos de amar.   

 

NEL MEZZO DEL CAMIN

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Belo soneto do Bilac, cujo título é o primeiro verso do canto 1 – Inferno- da Divina Comédia de Dante. Nós conhecíamos Bilac da letra do hino à Bandeira contido na capa dos nossos cadernos escolares. Novamente: belo soneto
    Dante: Nel mezzo del camin di nostra vita…….

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