SONETOS VI – AUGUSTO DOS ANJOS
3 de abril, 2026
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SONETOS VII – FLORBELA ESPANCA

“Procurei um lugar com meu céu e meu mar, não achei /Procurei o meu par/só desgosto e pesar encontrei (…)” – “Uma rosa em minha mão”, Toquinho e Vinícius, 1974.

 

Mais um soneto, agora de uma poetisa portuguesa, para a lista dos que venho compartilhando com os amigos.

 O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

Florbela d´Alma da Conceição Espanca (1894 – 1930) esteve à frente de sua época, rompendo muitas barreiras que se impunham às mulheres também na literatura. Produziu uma obra densa, marcada pela tristeza e pela melancolia, na melhor tradição lusitana. Tendo sua curta vida repleta de infortúnios, escreveu versos autobiográficos, talvez como uma forma de extravasar o que trazia no peito – suas desilusões, mágoas e desencantos.

Nos versos abaixo, encontramos uma das abordagens mais clássicas quando o tema é o Amor: o eu-lírico relata sua jornada à procura da felicidade amorosa, missão que lhe é dada pelo Destino, isto é, missão da qual não se pode fugir, nem se pode ignorar. De tom profundamente confessional, o soneto vai se desenvolvendo à medida que a procura vai se desenrolando – e, como se trata de Florbela, o leitor já lhe adivinha o desfecho.

Quem fala no poema está voltado para si – descreve sua busca e, ao fazê-lo, procura no leitor uma certa cumplicidade e uma certa solidariedade na jornada (às vezes) de vida inteira: até quando pode durar a busca por esse Amor?

À parte o tom teatral e dramático de seus versos, o soneto é simples, de uma linguagem bastante acessível ao leitor dos nossos dias – e o tema, universal e atemporal, fala a todos as pessoas, de todas as épocas.

        Enquanto muitos já cessaram suas tentativas – ou porque desistiram, ou porque encontraram quem procuravam –, outros milhões de seres espalhados pelo Mundo continuam sua jornada, em busca de alguém que os complete.     

 

EM BUSCA DO AMOR

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás de encontrar”.

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando…
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando…

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu… olhou… e riu…

Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos pra trás, desanimados…
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!…”.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Aprofundei-me um pouco mais sobre a vida dela, professor! Em uma das pesquisas achei uma frase: “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior…”
    Com certeza pesquisarei mais e mais! Obrigado por compartilhar.

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