
(…) Porque quem atravessa o próprio inferno não sai intacto — sai transformado. Sai com cicatrizes que contam histórias que ninguém viu (…) – José Batista, “Almas em Marcha”.
Dou prosseguimento à série de sonetos de alguns dos mais talentosos poetas do Brasil e de Portugal.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.
Nesta postagem, compartilho versos do português Antero Tarquínio de Quental (1842-1891), importante escritor da chamada “Geração de 70”, junto com Eça de Queirós e outros nomes – grupo que instaura o Realismo em Portugal.
Com uma lírica forte e marcante, Antero demonstrava uma ânsia acentuada por conhecer-se a si mesmo e, sem amarras, abordava e descrevia metaforicamente suas batalhas particulares.
No primeiro quarteto do soneto em questão, utilizando-se da figura de um cavaleiro medieval, o eu-lírico descreve a si mesmo como um homem otimista, corajoso e entusiasmado, que enfrenta o “deserto”, os “sóis” e a “noite escura” em busca do amor verdadeiro e, consequentemente, da própria felicidade – ou “o palácio encantado da Ventura”.
O contraste é marcado pela conjunção que inicia a segunda estrofe: “mas”, exausto e vacilante, ele desmaia; sua espada se quebra, sua armadura apodrece – e, ainda assim, ele avista seu pretenso paraíso. O eu-lírico é tomado pela esperança de que encontrou o que havia procurado com tanto afinco. Os versos se iluminam e o soneto ganha nova vida.
Na terceira estrofe, reconhece a si mesmo como um “infeliz” e um “deserdado” e, tomado pela dor, bate com força para que a Felicidade lhe abra as portas.
Quando, finalmente, adentra o lugar que, com portas de ouro, supostamente guardaria aquilo que ele busca, a decepção suprema!
Obviamente, há muitas interpretações possíveis para este poema. Uma delas, o perigo de nos encantarmos com o que pensamos ser o Amor verdadeiro que procuramos e idealizamos – e que pode nos enganar com suas “portas de ouro” e o vazio que se oculta por trás delas. Podemos pensar, também, na dicotomia entre sonho e realidade à qual todos estamos sujeitos na vida – o sonho da felicidade suprema e a busca incessante por ela. Daí, o cansaço, a decepção e o desencanto que podem nos assaltar ao longo dessa busca (às vezes) vã.
Há, ao mesmo tempo, beleza e pessimismo nesse soneto de Antero – mas creio que haja também muito de realidade, sobretudo quando lembramos de nossas buscas e, imediatamente, de nossas decepções, desencantos, tombos, feridas e cicatrizes…
E, como escreve José Batista, jamais somos os mesmos depois de tudo isso.
O PALÁCIO DA VENTURA
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura…
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
2 Comments
O que dizer sobre uma crônica que mostra um soneto tão lindo? Obrigada, não o conhecia, agora quero ler mais, adorei.
Professor, que lindo! Linda Crônica e lindo Soneto. Obrigado por compartilhar.