SONETOS VIII – GREGÓRIO DE MATOS
18 de abril, 2026
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SONETOS IX – GILKA MACHADO

Prosseguindo com a série de sonetos que valem a pena ser (re)lidos, hoje trago versos mais sensuais do que românticos.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

A carioca Gilka da Costa Melo Machado (1893-1980) era de família intelectual, foi casada e teve dois filhos. Sofreu misoginia e racismo por parte de escritores e críticos brasileiros contemporâneos seus – alguns se referiam a ela como “uma simples mulatinha escura”. Não fosse isso suficiente, também era considerada ousada e indecorosa para uma mulher de sua época: seus versos exploravam não só temas como amor e paixão, mas também a sensualidade do corpo feminino e seu direito ao prazer. Gilka era por demais transgressora – e obviamente incomodava. Ainda que tachada de devassa e libertina, conseguiu ser a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras.

Como se pode ver no soneto abaixo, a autora explora seus temas favoritos: quem fala no poema não se contenta apenas em descrever a saudade e a solidão enquanto pensa no ser amado ausente – com o pensamento e como consequência dele, vêm o desejo, a sensualidade, a exposição e o prazer que tomam conta do eu-lírico. A mulher que se expressa nos versos descreve a si mesma num descampado, sozinha, apartada do contato físico, mas nem por isso destituída do prazer carnal. O texto é todo ar e fogo – o primeiro alimenta o segundo, que incendeia cada verso.  

O poema é como um quadro na parede, mostrando uma mulher que se imagina nua, em harmonia com a natureza, suficientemente apaixonada e emancipada, sem pudores e amarras – livre como não se cogitava que uma mulher pudesse ser, numa sociedade puritana e machista, no começo do século passado.

Com o perdão da rima, muito antes de Adelaide Carraro e Cassandra Rios, houve Gilka Machado.  

 

NA PLENA SOLIDÁO DE UM AMPLO DESCAMPADO

 

Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua…
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças…

E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

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