
Trago mais um poema à série de sonetos que venho compartilhando com os amigos leitores.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.
Hoje, escolhi um poema de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914), professor e poeta, considerado um dos grandes nomes do Simbolismo e do Pré-Modernismo no Brasil.
Em “Vandalismo”, o eu-lírico nos fala de uma furiosa visita que ele faz ao seu íntimo – um mundo “iluminado” por ilusões, crenças, sonhos e fantasias, criados como se fossem pilares de sustentação que o mantêm de pé. Tomado de um certo desespero – cujas razões não ficam claras nos versos –, ele resolve destruir essas “catedrais imensas”, talvez porque elas raramente retratem a Verdade do Mundo.
Os versos abaixo falam do despertar amargo, da constatação desesperada que experimentamos quando a Realidade nos chama e nos tira da Idealização enganosa que, muitas vezes, criamos para podermos seguir com a Vida. A iconoclastia – destruição de imagens – como ato último da desilusão e do desencanto!
E o que leva alguém a romper consigo mesmo dessa forma tão violenta, tão dura e tão trágica? O poema não nos responde. Cada um de nós pode, contudo, pensar sobre si e enxergar as razões que conduzam a tal “despertar”. Erros cometidos, decepções, frustrações, traições… todas as experiências amargas, sempre à espreita, que fazem parte da chegada à maturidade. Mais cedo ou mais tarde, nós nos damos conta de que as ilusões, por mais belas que sejam, desmancham-se no ar.
Alguns dirão que são versos de grande pessimismo – outros, que são versos de intenso realismo… essa fronteira é sempre tênue, sempre embaciada, nunca muito nítida. E, diante dos momentos de felicidade e de tristeza que se impõem, oscila o homem entre a claridade de seus sonhos e a escuridão de sua existência.
VANDALISMO
Meu coração tem catedrais imensas
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!