
“Quando terminam os favores, começa a ingratidão” – provérbio português
Nesta postagem, trago um soneto que explora uma dor específica, causada por um comportamento muito comum nas relações humanas e que parece fazer parte do caráter de milhões de pessoas.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) nasceu no Rio de Janeiro e tornou-se cidadã do mundo – basta que se leiam suas Crônicas de Viagem. Transformou sua história de vida em razão para uma escrita profunda, às vezes dolorida, pungente e de uma sensibilidade própria dos grandes escritores. A poetisa foi marcada pela perda.
Sua mãe fica viúva enquanto está grávida de Cecília. Antes dos três anos, a mãe também morre. Sem irmãos, é criada pela avó – a escritora costumava dizer que a solidão havia lhe proporcionado a possibilidade de sonhar, criar e escrever. Mais tarde, seu primeiro marido se suicida, deixando-a com três filhas pequenas.
Cecília foi, além de poetisa, cronista, pintora e professora.
No soneto abaixo, o eu-lírico põe-se na posição de quem faz uma prece, descrevendo a dor que sente pelo esforço empregado durante sua vida: sem fazer distinção entre este ou aquele, praticou o bem que pôde e que julgava correto. Foi recompensado, porém, com este mal que tanto aflige as relações humanas – a Ingratidão.
Confessa ter uma alma infeliz, já que o bem praticado “sem revoltas nem cansaços” não lhe foi retribuído. No silêncio da noite, recolhe-se à própria dor, constatando “o amargor da solitude”.
Quantas vezes nossos favores são assim pagos! Quantas vezes nossas melhores ações de acolhimento, ternura e carinho são pouco (ou nada) valorizadas por aqueles que ajudamos – e até mesmo recompensadas com indiferença ou arrogância!
Ingratidão é sempre sinônimo de decepção. Uma traz a outra a reboque, puxando pela mão e fazendo-lhe companhia. Causa e efeito, essa dupla pode nos causar também tristeza, melancolia e até baixa autoestima. Como pudemos ser tão tolos ao ajudarmos incondicionalmente determinada pessoa?
Nem sempre somos conscientes do mal que fazemos a alguém, mas o ingrato age, parece-me, de caso pensado. Ele pede o favor, às vezes humilha-se para obtê-lo, mas sabe que virará as costas a quem lhe fizer o bem.
O soneto nos convida à reflexão. É sempre bom tomar cuidado com o escorpião pronto a picar nossas costas – ainda que o estejamos ajudando nas horas difíceis, como a rã da fábula.
ORAÇÃO DA NOITE
Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
as dores, – embalei-as nos meus braços,
como alguém que embalasse a juventude…
Acendi luzes, desdobrando espaços,
aos olhos sem bondade ou sem virtude:
consolei mágoas, tédios e fracassos
e fiz, a todos, todo o bem que pude!
Que o sonho deite bênçãos de ramagens
e névoas soltas de distância e ausência
na minha alma, que nunca foi feliz.
escondendo-me as tácitas voragens
de males que me deram, sem consciência.
pelos míseros bens que sempre fiz!…