SONETOS VII – FLORBELA ESPANCA
11 de abril, 2026
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SONETOS VIII – GREGÓRIO DE MATOS

Dando continuidade à série de sonetos, trago um dos poetas mais controversos da nossa literatura.

 O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

Gregório de Matos Guerra (1636-1691) é o grande nome da poesia barroca brasileira. Como típico homem desse período, apresentava contradições em seu comportamento e em seus temas, chegando a produzir poesias lírico-amorosas (às vezes, pornográficas), poesias sacro-religiosas e poesias satíricas, com as quais criticava severamente a sociedade, a Igreja e o governo da época. Dono de uma escrita impiedosa, logo entrou em conflito com as autoridades de então, sendo apelidado de “O Boca do Inferno” e ganhando o rótulo de “maldito”. Foi deportado para Angola, antes que fosse assassinado por seus inimigos.

Aqui, incluo exatamente uma de suas poesias satíricas. Nela, o poeta vai descrevendo (e criticando) a sociedade baiana do século 17 – as pessoas que se importavam mais com a vida alheia do que com suas próprias vidas e não hesitavam em falar mal dos outros em praça pública; a “picardia”, a esperteza, a malandragem, a desonestidade que permeavam as relações sociais, chagas tão familiares a nós, quatro séculos depois; a “usura”, a avareza, a busca desenfreada pelo dinheiro, a exploração dos comerciantes; e, por fim, a crítica mordaz às fortunas construídas com o roubo e com a corrupção.

Hoje, Gregório de Matos seria “cancelado” nas redes sociais, no mínimo, pelo racismo que ele não fez questão de esconder e que é considerado crime.

Não se pode negar, porém, que suas críticas falam de um Brasil muito atual – todos têm uma opinião sobre a vida alheia e não se envergonham dos absurdos que postam na internet, ao mesmo tempo em que os escândalos se sucedem na política e na economia, sem que as “autoridades” se sintam vexadas por seus delitos ou paguem por eles. Vivemos na terra da falcatrua e da impunidade! “Você sabe com quem está falando?”.

Brasil – quanto mais muda, mais fica igual!

 

DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA

 

A cada canto um grande conselheiro,

Que nos quer governar cabana e vinha;        

Não sabem governar sua cozinha,

E podem governar o mundo inteiro.

 

Em cada porta um bem frequente olheiro,

Que a vida do vizinho e da vizinha

Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,

Para o levar à praça e ao terreiro.

 

Muitos mulatos desavergonhados,

Trazidos sob os pés os homens nobres, 

Posta nas palmas toda a picardia,

          

Estupendas usuras nos mercados,        

Todos os que não furtam muito pobres:

E eis aqui a cidade da Bahia.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, nos dias de hoje ele seria cancelado nas redes sociais, com certeza! Achei bárbaro o apelido “Boca de Inferno” – as críticas dele refletem o Brasil de hoje. Excelente publicação.

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