
“Não se afobe, não, que nada é pra já / o amor não tem pressa, ele pode esperar…” – “Futuros Amantes” (Chico Buarque)
Por quanto tempo se pode esperar pela realização de um amor? Nem sempre é possível vivê-lo quando se deseja. O soneto desta postagem fala exatamente disso – um sentimento que, diante da(s) impossibilidade(s) de sua concretização, é conhecido como Amor Platônico.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Pouco se sabe sobre a vida do português Luís Vaz de Camões (1524? – 1580?), mas ele é considerado o maior poeta em língua portuguesa de todos os tempos. Famoso por seu poema épico “Os Lusíadas”, no qual narra a aventura de Vasco da Gama e dos heróis lusitanos que navegaram além do Cabo da Boa Esperança e abriram uma nova rota para a Índia, o escritor também se notabilizou por uma intensa e numerosa produção de sonetos, alguns deles muito conhecidos.
Independentemente de religião, fé ou crença, uma das mais bonitas passagens da Bíblia (e complicadas também!) é a história de amor entre Jacó e Raquel, no Antigo Testamento. A moça é filha de Labão e Jacó se apaixona por ela. Pede a mão da moça em casamento, mas Labão impõe uma condição para ceder a mão de sua filha ao moço: que Jacó trabalhe para o futuro sogro durante sete anos, ao fim dos quais poderá se casar com ela. O jovem, tomado pelo amor, aceita. Jacó vai trabalhando, trabalhando, e Labão vai enriquecendo. Ao fim dos sete anos, quando os enamorados têm a certeza de que poderão ficar juntos, o pai da moça vem com uma outra condição: Raquel não pode se casar antes da irmã mais velha, Lia, que está solteira. Jacó, então, casa-se com Lia, e começa a servir mais sete anos a Labão, a fim de ficar com sua amada.
Bigamia? Sim. Estamos falando de outros tempos. Jacó fica com as duas, mas ironicamente é Lia quem vai lhe dando filhos, ao contrário de Raquel. Mais tarde, finalmente, Raquel consegue engravidar, e o primeiro filho recebe o nome de José.
José será o filho favorito de Jacó, despertando a inveja e o ódio dos filhos de Lia. Numa das passagens mais tristes e trágicas da Bíblia, José é vendido ao Egito pelos meios-irmãos, sem que Jacó saiba da verdade. Os filhos mentem, e Jacó passa a viver uma dor intensa na ausência do filho querido.
(Noutra passagem bíblica, encontraremos José sofrendo como escravo. Ao interpretar os sonhos do faraó e ao conquistar a confiança do governante, o rapaz é alçado à condição de governador do Egito. Uma história muito bonita também…)
Voltemos ao soneto: alguns estudiosos chegam a afirmar que o poema talvez seja autobiográfico: o escritor português também teria servido durante sete anos (de 1540 a 1547) a uma família na esperança de se casar com uma jovem. Assim, ele teria, de maneira sutil e inteligente, narrado uma experiência pessoal, porém metaforizada pelo episódio bíblico.
Nas Escrituras, depois de se ver enganado pelo sogro, Jacó volta a perseguir seu objetivo – ficar com Raquel. O jovem não mede esforços, o amor é resistente. Jacó se propõe a ultrapassar todas as barreiras a fim de merecer a pessoa amada.
Note-se, também, que o poema termina antes dos casamentos do pastor com as duas irmãs. Dessa forma, Camões explora o amor platônico, isto é, o amor puro, idealizado, sem o contato carnal – “contentando-se com vê-la”.
No fim, a intervenção do protagonista: o moço afirma que trabalharia quanto tempo mais fosse necessário, pois o verdadeiro amor é incansável e infinito – a vida é que não basta para tanto!
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela:
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste Pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua Pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, senão fora
Para tão longo amor tão curta a vida”.