
A história a seguir não é da minha autoria. Eu a li há muitos anos, num livro antigo que encontrei em um “sebo”, no centro de São Paulo – “Antologia da Literatura Mundial”, da Editora Logos, que eu nem sei se ainda existe. O volume não informa, mas, pela ortografia, a edição talvez seja dos anos de 1960. O nome do autor também não consta.
Vamos a ela!
O SÁBIO VIZIR (LENDA ORIENTAL)
Existiu outrora um grande reino oriental, governado com muita sabedoria por um famoso soberano. Para que o reino se tornasse poderoso e indestrutível, era preciso conquistar dois países que ficavam próximos às fronteiras norte e sul. Como sempre acontecia, toda vez que era necessário tomar uma importante decisão, o rei consultava o sábio vizir.
– Quero que me informes de quantos homens precisarei para conquistar o país grande, que fica ao sul, e de quantos precisarei para conquistar o país pequeno, que fica ao norte.
O vizir, sempre obediente e fiel, pediu o prazo de duas semanas para averiguar tudo. Depois disso, retornaria com as informações que o rei lhe exigira. Durante duas semanas, o vizir despareceu do palácio. Disfarçado de homem do povo, foi viver no país grande. Percorreu ruas, mercados, visitou casas e escolas, conviveu com as famílias e aproveitou para conhecer os costumes e tradições daquela gente.
Uma semana depois, foi para o país pequeno e repetiu tudo o que já havia feito no país grande. Estudou tudo minuciosamente e voltou ao palácio para conversar com o rei.
– Alteza, para conquistares o país grande, manda mil homens e o país será teu. A vitória é certa.
O rei seguiu as orientações do vizir e, em pouco tempo, o país grande estava derrotado. Satisfeito, o monarca mandou chamar novamente o vizir e perguntou quantos homens seriam necessários para conquistar o país pequeno.
– Para o país pequeno, precisarás de 40 mil homens.
O rei se espantou e se enfureceu:
– Como? Estás gracejando? Para o país grande, precisei apenas de mil homens. E tu me dizes que, para conquistar o país pequeno, precisarei de 40 mil? Não tolero gracejos! Vais já para a masmorra do castelo.
Ainda assim, o rei ficou pensando no que o vizir havia dito e resolveu seguir suas orientações. Mandou 40 mil homens para o país pequeno, onde se travou uma batalha terrível, que durou muito tempo, com muitas perdas de ambos os lados. Quando conquistaram o país pequeno, verificaram que muitos homens haviam perecido e que a guerra havia sido muito, muito mais difícil do que a anterior.
Depois disso, o rei ordenou que lhe trouxessem o vizir e lhe disse:
– Quero que saibas que o país pequeno foi conquistado, apesar de muitas baixas sofridas por nosso exército. Mas exijo que me expliques por que foram necessários mil homens para um país tão grande e 40 mil homens para um país tão pequeno. Ordeno que me esclareças!
– Nobre rei – começou o vizir –, sempre te aconselhei com sabedoria e fidelidade. Humildemente, peço-te que nunca mais duvides de mim. Passei uma semana no país grande e observei seus habitantes. Os comerciantes eram desonestos e viviam uma concorrência desleal. As famílias eram desunidas, porque os familiares brigavam muito entre si, além de hostilizarem-se e invejarem-se muito uns aos outros. Escolas abandonadas. Professores negligenciados. O exército estava dividido. A sociedade estava em ruínas. Não vi um político honesto, pois só queriam levar vantagem sobre o povo tolo e iludido. Corrupção, falcatruas, golpes, mentiras, desvios de dinheiro público, pessoas miseráveis por toda parte e, ainda assim, acreditando em falsos líderes que só pensavam em si mesmos. Passei a outra semana no país pequeno e ali observei: lealdade e honestidade por toda parte, escolas bem estruturadas com professores respeitados e bem-remunerados. Pessoas esclarecidas e, por isso mesmo, cientes do que seus políticos podiam e não podiam fazer. Um exército unido e consistente como um bloco de pedra, pronto para defender seu país. Governantes honestos, que não se valiam do poder apenas para enriquecimento próprio. O bem-estar da população era uma preocupação de seus políticos. Por isso tudo, no país grande, era necessário um pequeno contingente para conquistar uma sociedade que já estava derrotada antes mesmo da invasão. E, no país pequeno, era necessária uma tropa de 40 mil homens para derrotar uma sociedade que, embora pequena em número, era gigante em princípios. Compreendes agora?
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Fiquei pensando nessa história. E o leitor, obviamente, já sabe de que grande e triste país me lembrei.
1 Comments
Professor, a história tem uma mensagem política e moral muito forte, especialmente pelo contraste entre os dois países. O ponto central não é o tamanho dos territórios nem o número de habitantes – é a força interna de uma sociedade.
A história também funciona muito bem como uma crônica sobre os dias atuais, porque permite fazer uma reflexão. Quando uma sociedade aceita corrupção, mentira, privilégios e políticos que só pensam em si mesmos, ela pode perder sua força sem que ninguém precise derrotá-la pela força.