
Ele anda de mãos dadas com a mulher logo que saem do hotel. Atrás, o filho de 16 anos também dá a mão para o namorado, e quem os vê logo pensa numa família muito moderna e evoluída.
Dois dias atrás, a discussão do homem com a esposa. Ela, a mãe, defendendo o filho que queria trazer o namoradinho para a capital, aproveitando o feriadão para sair um pouco daquela cidadezinha que não tinha nada. Ele, o pai, achando que permitir o tal namoro já era o suficiente – tinham que levar junto o namorado do filho? Família tem de viajar junto, ela teria dito. Família? O outro era da família?
Só a palavra “namorado” já lhe era estranha. Como estranhos eram os olhares dos amigos no futebol da manhã de domingo, na várzea, e durante a cervejada depois do jogo. Como estranhos eram os olhares dos vizinhos para o filho único que vivia com o outro pra cima e pra baixo. Ele, o pai, tentando manter a dignidade – controlando-se para não explodir e não acabar com aquela sem-vergonhice. O sonho de levar o filho para o futebol, o desejo de ter um neto, de ver um casamento bonito, na igreja… custava ser “normal”?
Concordara com tudo: o namoro, o acesso do rapaz à casa deles, o fato de o menino poder dormir lá (“Isso já é demais, mulher! Dormir aqui em casa? Onde vamos parar?”). As discussões com a esposa, os argumentos dela e, finalmente, o “deixa pra lá” pra não criar confusão em casa. A vida inteira, a vontade dos outros. O incômodo com aquilo, o silêncio que não lhe trazia paz, a vergonha que ele tentava esconder com a cabeça erguida. Difícil ser um pai moderno e tolerante.
Quando ficou acertada a viagem, a mulher, que veio não lhe perguntar se ele concordava, mas apenas lhe comunicar que o filho levaria o namorado com eles. Ficariam em dois quartos. Ele, o pai, pagaria tudo, claro. A irritação que tomou conta e a vontade de desistir da viagem. “Então, vão vocês”, quis dizer – mas não disse.
Pensou estar perdendo a autoridade dentro da própria família. Já tivera alguma? Era desrespeito da esposa ou compreensão demais da parte dela para com o filho? Ele estava sendo intransigente ou sua família havia perdido o senso do ridículo? E essa lei, agora, que condenava quem não gostava de gays! E esse negócio de união homoafetiva em filmes, novelas, séries! A tal da Parada Gay como a maior do mundo na capital! Que mundo era esse?
Chegaram a São Paulo por volta das 11h da manhã. Foram para o hotel, e ele e a mulher combinaram que estariam no lobby às 13h para almoçarem juntos num restaurante ali perto, que ele conhecia. Que os meninos não se atrasassem!
Agora, caminham sob o sol da tarde que cai. Banhos tomados, roupas trocadas, vão explorar um pouco da cidade no feriadão. Ele, o pai, quer almoçar antes de tudo. Ela, a mãe, quer ir a alguns shoppings depois. E os meninos? Não pensaram em nada. Vão andar pela cidade e, mais tarde, voltarão para o hotel. A mãe recomenda cuidado, o pai se irrita com essa recomendação e com o zelo dela, para ele, exagerado.
Vão caminhando, sem pressa. Ele de mãos dadas com a mulher. Logo atrás, o filho de mãos dadas com o namorado. A mulher fala alguma coisa que ele não ouve. Seu pensamento está na cena, nas suas costas, que ele não tem vontade de olhar. Enquanto a mulher fala, ele se pergunta: “Onde foi que eu errei na criação desse moleque?”.
Na mesma calçada, indiferentes a ele, os meninos seguem sorrindo. Quem os vê logo pensa numa família muito moderna e evoluída. Até mesmo feliz.