O PAÍS GRANDE E O PAÍS PEQUENO
23 de agosto, 2026
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DE FATO E DE FICÇÃO

Faz algumas semanas, pude assistir a um dos documentários sobre a tragédia da Escola Base, que ficava no bairro da Aclimação, em São Paulo. Para quem não se lembra, a escola sofreu erros graves de investigação policial e de cobertura jornalística em março de 1994. Quando todos os equívocos podiam acontecer, eles aconteceram. E os danos foram irremediáveis.

Duas mães de alunos acusaram os donos, mais uma professora e um motorista da escola de abusarem sexualmente de alunos que tinham por volta de quatro anos de idade. As acusações foram um prato cheio para a mídia sensacionalista que, avidamente, berrou a notícia aos quatro cantos, gerando indignação da opinião pública – isso tudo muito antes de qualquer comprovação por parte da polícia. Como consequência da histeria coletiva, a escola foi depredada e pichada, além de os envolvidos serem ameaçados de morte. Com tudo isso, a escola fechou as portas e seus donos, além do prejuízo financeiro, sofreram danos morais dos quais nunca mais se recuperaram. Uma proprietária morreu de câncer, e seu marido, de infarto. Uma terceira sócia viu seu casamento desmoronar no meio do furacão.

Mais tarde, comprovou-se a farsa: as crianças haviam sido induzias a mentir e nenhuma evidência dos supostos abusos foi encontrada. O “Caso da Escola Base” ficou conhecido como um dos maiores (senão o maior) erro jornalístico do País, servindo como exemplo de como se destroem reputações quando denúncias não são averiguadas com o rigor que elas exigem. Lembro que, na época, não se usava a expressão “fake news” – mas aquele foi um caso clássico de mentiras terríveis e muita irresponsabilidade por parte da imprensa e da Justiça.

Na internet, há bons documentários sobre o ocorrido, e todo estudante de Jornalismo, Direito, Psicologia e Sociologia deveria vê-los.

Corta para Hollywood, na Califórnia!

Em 1936, William Wyler dirigiu o filme “Infâmia” (“These Three), sobre duas professoras (as atrizes Miriam Hopkins e Merle Oberon) que abrem uma escola para meninas em uma antiga fazenda, a qual uma delas herdou de sua avó. Uma das alunas, menina mimada e mentirosa, neta de uma milionária da cidade, levanta uma calúnia, instigando as pessoas a acreditarem que, na escola, existe um triângulo amoroso entre as professoras e o namorado de uma delas. O escândalo explode e, claro, afeta as duas professoras e seu estabelecimento de ensino.

Nessa adaptação, a história da dramaturga Lillian Hellman sofreu alterações da sua versão original: a homossexualidade latente de uma das professoras é apagada do roteiro, mas a injustiça de que as duas são vítimas está ali, na cara do espectador.

Bem, o que foi censurado no filme de 1936, vai aparecer com mais clareza na refilmagem de 1961, também dirigia por Wyler, agora com as atrizes Audrey Hepburn e Shirley McLaine nos papéis das professoras. Aqui, com o mesmo título em português (mas com outro em inglês: “The Children´s Hour”), uma das professoras realmente é apaixonada pela outra, que tem um namorado (o ator James Garner). Essa versão é mais realista, digamos. Além do drama enfrentado pelas professoras por causa das mentiras da aluna mimada, há ainda a homossexualidade e paixão secreta de uma professora por outra, que não pode, de modo algum e por razões óbvias, vir à tona.

Revi as duas versões, que são muito boas – cada uma à sua maneira –, mas a segunda é mais trágica, com um fim diante do qual não se consegue ficar indiferente. Os filmes remetem ao caso da escola – o caso da escola remete aos filmes. Vida e arte de mãos dadas. (Como curiosidade, li que a ideia original dos produtores era convidar Katharine Hepburn e Doris Day para os papéis principais.)

Moral da história: uma fofoca bem contada ou uma calúnia bem arquitetada podem, infelizmente, se espalhar como fogo em mato seco, ou, como se diz hoje, têm tudo para viralizar.   

Se esses filmes convidam o espectador a pensar, o caso da Escola Base convida para muito mais: intima o público a ter cautela com o que lê, vê e repete nas redes sociais sem se preocupar com as consequências de boatos e mentiras que podem destruir reputações e vidas.

Alerta que, obviamente, também serve para jornalistas e policiais – além dos tais “influencers” e afins.  

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Verônica disse:

    Pois é, tenho pensado muito em tudo isso que você descreve no texto . As informações atuais se tornam assustadoras , sem embasamento, sem averiguação…O importante é ter likes.
    Muito triste.

  2. Professor, tive a oportunidade de assistir ao documentário da Escola Base e a entrevista do repórter que fez a cobertura deste caso.! É impressionante como algumas pessoas se transformaram em investigadores, promotores, juízes e jornalistas — geralmente sentadas no sofá e sem qualquer documento em mãos. Uma reputação destruída pode levar uma vida inteira para tentar se reconstruir.

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