“A” – DE AMOR E DE AMIZADE
12 de outubro, 2026
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UM PROVÉRBIO CHINÊS E A LUA

“Quando estão na moda, vícios passam por virtudes” – Molière (dramaturgo francês do século 17)

 

Sempre acompanhei meio de longe a movimentação das chamadas redes sociais. Desde os primórdios, nunca me senti seduzido a divulgar meus gostos, compartilhar meu dia a dia ou exibir minhas fotos de viagem ou de casa para a multidão que não significava nada pra mim. Isso talvez seja reflexo da idade, mas conheço muita gente contemporânea minha que posta fotos e mais fotos, textos e mais textos à procura de… “likes”, ou seja, aprovação, confete, aplauso, celebração por parte da multidão.

O outro lado da moeda – porque sempre há um outro lado – vem a ser o perigo da crítica pesada, da ofensa, do confrontamento, da reprovação e, finalmente, do cancelamento. A internet transformou-se, assim, numa selva, na qual não se consegue ver bem o topo da cadeia alimentar, com todos tentando devorar a todos, em uma guerra de egos infinita, alimentada pela vaidade, pelo narcisismo e pela necessidade descontrolada de ostentar, exibir, de se fazer notar.

Vou me ater aqui à necessidade desenfreada dos tais “likes”. Preciso ser notado, preciso que as pessoas vejam o que postei sobre mim ou sobre meus gostos, sobre meus parentes ou sobre meus amigos, sobre minha aventura na academia (e quanto estou emagrecendo) e sobre minha salada que acabei de pedir no restaurante; sobre o vinho importado que estou bebendo, sobre o carrão que acabei de comprar, sobre a cidade que estou visitando, sobre meu candidato às eleições para presidente, sobre o que penso a respeito de tudo, absolutamente tudo – porque eu entendo de tudo!

O que antigamente podia ser uma carta entre dois ou três amigos agora tornou-se uma espécie de “Carta Aberta à Humanidade”, com a qual eu procuro a notoriedade e a fama, mesmo não enxergando os malefícios que isso pode provocar em minha vida e na vida dos que me cercam.

E anormal vem a ser aquele que não compactua com esse comportamento de mostrar e exibir a todos tudo o que se passa em seu íntimo! Pessoas que chegam ao exagero de fotos que não deveriam sequer existir. Um exemplo: certa vez, um aluno me mostrou uma foto que ele tirou no velório do avô – uma “selfie” com ele e o avô no caixão para “guardar de lembrança, professor”. E claro que ele não guardou a foto bizarra para si – postou na rede social de sua preferência e esperou as “curtidas”. As tão desejadas “curtidas”!

Conheço pessoas que, se não conseguem um certo número de “likes”, sentem-se deprimidas e pouco valorizadas, como se o amor-próprio delas dependesse (e depende!) da aprovação dos outros. Não percebem que já somos excessivamente avaliados pelo mundo. Não percebem que as pessoas estão sempre prontas a julgar o que vestimos, o que calçamos, o que comemos. Estão sempre prontas a emitirem uma opinião sobre a profissão que escolhemos, sobre como trabalhamos e até se queremos nos aposentar ou não. Sempre prontos para cuidarem da vida alheia.

Precisam da validação dos outros. Precisam desesperadamente que suas postagens recebam tantos “likes” quantos forem possíveis – e, para isso, não medem esforços.

Caem na armadilha de submeterem sua felicidade à aprovação de centenas e centenas de pessoas que não se conhecem, que não sabem dos problemas e das dificuldades alheias. Deixam-se levar pela ilusão dos tais “likes”, como se eles fossem mais importantes do que o ar que respiram. Criam uma dependência perigosa, chegando mesmo à tristeza e à depressão por não conseguirem as “curtidas” que tanto almejam ou o número de seguidores que tanto querem atingir.

Fiquei pensando num antigo provérbio chinês, que talvez fosse útil a essa gente desesperada e carente da internet. É um provérbio simples, mas profundo, como a sabedoria oriental. Ele diz assim: “A Lua não se altera quando ninguém lhe presta atenção”.

Nas noites estreladas, nas noites de névoa espessa, nas noites à beira-mar, nas noites das grandes cidades geladas, nas noites das cidades pequenas e acolhedoras, nas noites dos enamorados e nas noites dos solitários, a Lua mantém sua dignidade – ela não se altera quando ninguém lhe presta atenção.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, já somos avaliados demais pelo mundo para darmos créditos nas opiniões alheias, acredito que o nosso valor não depende da atenção, do reconhecimento ou dos aplausos dos outros. A Lua continuará brilhando mesmo quando ninguém olha para o céu, devemos preservar nossa essência, independentemente de sermos notados ou valorizados.

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