
Os três amigos vêm descendo a rua do bairro onde cresceram. António, Alexandre e Augusto têm 16 anos. São 11h00 da noite, e os três rapazes voltam da escola noturna. Chutam pedras, caminham quietos, trocam poucas palavras àquela hora. É o Alexandre quem quebra o silêncio:
– Tenho uma coisa pra falar pra vocês…
– Fala, então! – diz o António.
Alexandre espera a aprovação do Augusto, mas este não fala nada. Segue quieto, calado, cabisbaixo. Alexandre ainda espera um pouco e, como o amigo continua em silêncio, começa a falar:
– Vocês perceberam que a Júlia vive me dando bola na classe? Ela me traz chocolate, fica sentada perto de mim, se ofereceu pra me ensinar Matemática… vive grudada!
É o Augusto quem responde, meio impaciente:
– A classe inteira já percebeu. Ela gosta de você… por que você não namora com ela de uma vez? Ela é bonitinha…
– Bonitinha ela é, sim. E inteligente. Conheço os irmãos dela e são gente boa. Você devia ficar com ela, Alexandre, acrescenta o António.
– E, de mais a mais, nunca vi você com namorada nenhuma. Vai ver, é virgem. Será, António? – comenta, rindo, o Augusto.
O gracejo do amigo doeu no peito do Alexandre.
António esboça um sorriso, mas não ri: sabe que isso pode magoar o Alexandre. Alexandre, contudo, continua a procurar a cumplicidade dos amigos:
– Eu não gosto dela. Júlia é bacana, simpática, bonita… mas não sinto nada por aquela menina…
– Você é muito exigente, Alê! – diz o Augusto. Tá esperando uma princesa na carruagem? Menina direita igual a ela não tem muito por aí, não, hein… fica escolhendo muito e acaba pegando um tribufu, uma fulaninha qualquer.
– Eu sei, mas não vou ficar com ela só porque ela é bonita e tal. Amor não conta?
– Amor? Que negócio é esse de amor, cara? Na nossa idade, o negócio é “pá e bola”, sem muito envolvimento. E muito cuidado pra não engravidar a menina. A gente tem só 16 anos… vamos conhecer muita mulher ainda.
– É verdade, Alê: ficar pensando em “amor” agora é perder tempo. A menina deu mole, pega! E você tem sorte porque a Júlia é bonitinha e direita, comenta o António.
Por um momento, a conversa parece morrer. Sob as luzes de mercúrio, os amigos continuam descendo a rua esburacada em direção às suas casas. Uma viatura de polícia passa por eles, mas desta vez não para, como na noite anterior em que os meninos foram revistados e até tratados com brutalidade.
– Achei que iam nos revistar de novo, diz o Augusto, sem conter a raiva e a aversão que sente por policiais. São valentões com a gente, que é menor, mas não pegam os traficantes na porta da escola… tá tudo errado!
– O filho da dona Cida foi pego com cocaína na semana passada. Minha mãe contou que ele tá preso, conta o António.
– Tá preso porque não pode pagar um advogado caro. Quem tem dinheiro não fica preso neste país, revolta-se o Augusto.
Alexandre não fala nada. Calado, ouve os amigos, deixa que eles quebrem o silêncio da noite escura e um tanto fria.
Quando chegam ao portão do Augusto, ele para e se despede dos amigos:
– Até amanhã, então! Vou entrar logo porque tô morrendo de fome. Não jantei hoje. Saí do trabalho e fui direto pra escola. Não tinha dinheiro pra comprar lanche lá. Meu estômago tá roncando.
– E por que não falou pra gente, Guto? Eu tinha dinheiro aqui. Uns trocados. Dava pra comprar uma coxinha na cantina… uma coxinha ou uma empadinha – diz o António.
– Tudo bem… não vou morrer por causa disso. Já tô acostumado a assistir às aulas em jejum. Boa noite pra vocês! E, Alê, deixa de ser criança e pega logo a Júlia. Ela tá te dando mole. Daqui a pouco a escola vai pensar que você é gay… Tchau! Entra pelo portão, rindo.
Os outros dois dizem tchau e seguem caminhando. Moram na mesma calçada, mas mais adiante. O silêncio volta a reinar entre eles. Um silêncio pesado. Caminham lado a lado e, quando chegam ao portão do Alexandre, é ele quem se despede:
– Falou, Tôni. Bom descanso. A gente se vê, amanhã, na aula. Também tô com fome hoje…
– Combinado, Alê. Vou tomar um banho e dormir. Daqui a pouco, tô de pé. Às 5h.
– Tôni, posso falar uma coisa com você?
– Fala, Alê! O que é?
– Esse negócio da Júlia… ela é legal e tudo, mas… eu não quis falar perto do Guto… não sou chegado em meninas.
– Eu já tinha percebido, Alê! Faz tempo… mas você tem que tomar cuidado com isso aqui no bairro. Tem uma galerinha do mal… você sabe. O Guto mesmo é nosso amigo, mas não sabe lidar com isso. Ele é gente boa, crescemos juntos, mas é um tanto tacanha pra esses assuntos. Pode contar comigo quando quiser conversar, mas tome cuidado.
– Vou tomar, sim. É que tô tão angustiado por ser diferente de vocês! Tenho chorado muito sozinho. É esquisito não poder conversar sobre isso com você e com o Guto.
– Comigo, você pode conversar sempre. Sou teu amigo, pô! Nossa amizade não é só pra hora de ir pro estádio ou pra passar cola nas provas… Até amanhã!
– Até, Tôni. Ah! Só uma coisa: obrigado. Fiquei com medo de você não querer mais ser meu amigo. Vou dormir um pouco mais leve hoje. Só você está sabendo…
Fecha o portão e entra pela cozinha.
Parece que o António não respondeu nada. Apenas sorriu e seu sorriso fez toda a diferença na vida do Alexandre. Os rapazes cresceram, António se casou, tem três filhos e ainda é o melhor amigo do Alexandre.
Guto acabou se casando com a Júlia, que só mais tarde entendeu por que o Alexandre nunca lhe dera bola. O Guto até hoje não se conforma por não ter percebido nada – justo ele, que sempre fora muito esperto!
O Alexandre seguiu sua vida, longe daquele bairro e da vida difícil que ali ele levava. Foi ser feliz ao seu modo. Nunca mais, porém, esqueceu aquela noite, quando, voltando da escola, falou de amor e teve uma prova bonita de uma amizade sincera da parte do António.
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Professor, a amizade verdadeira não se prova apenas nos momentos de diversão, mas envolve responsabilidade afetiva, principalmente quando alguém confia em nós para revelar algo que teme compartilhar com o mundo.