INOCÊNCIA
17 de janeiro, 2026
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ALMOÇO DE DOMINGO

Overhead view of friends enjoying a luxury meal at restaurant

A história começa assim: é um almoço de família, desses com mesa farta. Macarronada, bife à milanesa, salada de maionese, frango assado, arroz, risotos, lasanha, farofa e muita bebida. As deliciosas sobremesas aguardam a sua vez, na geladeira, para serem devidamente degustadas e apreciadas por todos. Tudo feito com carinho e esmero pela dona da casa.

Na ponta da mesa, seu marido – um homem de uns 55 anos, feliz por poder reunir sua família com a do cunhado, irmão da esposa, mais a sogra e o sogro. São 11 pessoas no total, entre adultos e jovens.

Pratos bem servidos, todos começam a comer e a beber. Ouvem-se risadas, latinhas de cerveja e de refrigerantes são abertas, pratos dançam de um lado a outro da mesa, passam de mão em mão, talheres cortam e servem, e o almoço vai transcorrendo normalmente na tarde quente do domingo.

O ritual dura quase duas horas. Alguém exclama ter comido como um rei. Um outro diz que a comida está divina. Alguém diz que precisará soltar o cinto. Risadas. Há aqueles que não falam – só comem e bebem como se estivessem no paraíso. Terminada essa etapa, vêm as sobremesas. Manjares, bolos, pudins, sorvetes e docinhos pra coroar o almoço.

A mulher corta um dos bolos e dá a primeira fatia ao marido – o que provoca os aplausos de todos. No meio da algazarra, o cunhado do dono da casa, um tanto alterado pelas cervejas todas ingeridas, pede a palavra. Bate com a colher no copo e pede silêncio. Todos param para ouvi-lo. E ele fala:

– Obrigado, meu cunhado, pelo convite e pelo almoço maravilhoso que você e minha irmã nos oferecem. Um prazer estar aqui com vocês hoje. Tudo muito bonito, tudo muito gostoso. Só estou sentindo falta de um namorado para a minha sobrinha, que já tem 19 anos, e nunca trouxe um rapaz aqui para a família conhecer. Será que ela não é chegada? Está sempre na companhia de ‘uma amiga’, de uma ‘colega’… cadê o namorado?

E ri, antes de tomar mais um gole da cerveja que está no copo.

A esposa põe a mão no braço do marido que acaba de falar, como a pedir que ele pare com as palavras inconvenientes. A dona da casa fica séria, pergunta, sem jeito, se alguém mais quer algum pedaço de torta de morango ou do quindim. A sobrinha em questão, corada, não sabe bem o que fazer. Tímida, não tem a coragem de sair da mesa, afastar-se do clima que se forma. Olha para a outra, evidentemente sua namorada, como a pedir desculpas por aquilo. Os avós, constrangidos e envergonhados, continuam a comer seus doces, sem vontade, sem conseguirem sentir o gosto das sobremesas. Tudo desce mal.

Nesse momento, o dono da casa olha para o cunhado com desprezo e nojo acumulados pelos anos, uma repulsa pelo comportamento do outro, tantas vezes engolido e aceito em nome da boa convivência familiar. E fala:

– Então, meu cunhado cobra um namorado da minha filha… acha que essa moça, que só nos dá alegria – a mim e à mãe dela – precisa, tem que ter um homem ao seu lado. Por quê? Que diferença isso pode fazer para você, meu cunhado? No que isso mudaria a sua vida e a de sua família? Um namorado de minha filha tornaria vocês todos mais felizes, mais realizados, mais tranquilos? Por que a vida dessa jovem, que nunca fez mal a ninguém, desta e de outras famílias, tem tanta importância para você? Ainda não consegui entender a que ponto meu cunhado quer chegar… É uma preocupação genuína com sua sobrinha ou vem a ser mero veneno direcionado a uma jovem tão tranquila e serena? Meu cunhado é desses que olham o vizinho, que se preocupam com o outro lado da cerca em vez de olharem para o próprio quintal? É desses que levam a vida incomodados com a vida dos outros?

Nesse momento, o outro quer falar, mas o dono da casa não permite:

– Alto lá, meu cunhado, que eu ainda não terminei! Na minha casa, falo eu – e, depois, só depois, os outros podem piar. Antes de olhar o rabo alheio, meu cunhado deveria cuidar de sua família, de sua vida, de seus negócios. Se tenho o prazer de convidar a você e à sua família para a minha casa, também posso ter o prazer de pedir para que saiam – não pela minha cunhada, nem pelos meus sobrinhos, mas porque não admito que minha filha seja ofendida, nem aqui, nem em lugar algum. Já fiz vistas grossas a outras insinuações suas, já fingi não ter ouvido a outras palavras grosseiras com relação à vida de sua sobrinha – que, aliás, não lhe diz respeito. Noto que você presta uma atenção exagerada à minha filha, e não gosto disso. Respeite sua esposa e seus filhos. E, se não for capaz disso, não os desrespeite em minha casa. Para grandes males, grandes remédios! Saia agora por aquela porta… e não volte mais, meu cunhado!

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

3 Comments

  1. Professor, essa Crônica é a famosa “BASTA”, “CHEGA” – “cuide da sua vidinha, meu cunhado”. Fez bem o dono da casa não permitir que o cidadão continuasse. Pessoas inconvenientes devem ser colocadas em seus devidos lugares. Eu dei um basta em pessoas que nos recebem em suas casas e só elas têm razão, só elas sabem e entendem de tudo, inclusive. A gente cansa!

  2. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Muito boa crônica. Deliciosa e verdadeira!!!
    Como já nos mostrava Mário Monicelli, parente é serpente. E além do mais o dito popular se encarrega de nos afirmar que cunhado não é parente, não é mesmo?
    Parabéns pela crônica

  3. Clarice Keri disse:

    Ótima crônica, família, todas iguais, obrigada.

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