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DISTÂNCIAS

Estive pensando nas diversas distâncias que enfrentamos na vida. Algumas delas provocadas por nós mesmos, outras que ocorrem independentemente de nossa vontade e diante das quais nada ou quase nada podemos fazer. Umas boas, outras ruins.

A distância do filho que parte para a guerra; a distância de um ente querido no leito de um hospital; a distância entre pessoas que se querem bem, mas que viram o amor ir embora (e o abismo que ficou entre elas); a distância entre os que moram sob o mesmo teto e que já não têm mais a conexão que um dia tiveram (um já não suporta os gostos do outro, e o silêncio que se transforma em quilômetros na frente da TV).

A distância entre o eleitor e o político (com suas promessas de campanha) que, agora eleito, esconde-se em sua torre de marfim, irreconhecível e corrupto. A distância entre o chefe, inatingível em sua arrogância, e seus funcionários, vistos como máquinas.

A distância entre o professor e o aluno, porque aquele é orgulhoso demais para prestar atenção a este – ou vice-versa. A distância entre o médico e o paciente, quando o renomado doutor mal olha para a pessoa humilde que acabou de entrar em seu consultório. A distância entre a patroa e sua empregada, considerada apenas como mais um acessório da casa imensa e repleta de trabalho. A distância entre os moradores do condomínio e o porteiro, simples funcionário que não merece um cumprimento. O poder que distancia, separa e provoca a indiferença.

A distância entre pais e filhos, sem o carinho do olhar e do abraço, tendo como desculpa, sempre, o choque de gerações. A distância entre amigos que não se procuram e vão deixando a amizade se transformar em “bom dia”. A distância resultante de aplicativos de mensagens com os quais as pessoas vão se acomodando e se perdendo fisicamente umas das outras. O abraço que não damos e não recebemos mais. A distância provocada pela correria do dia a dia e o “depois a gente se fala”, tão traiçoeiro entre pessoas que se queriam bem. “Visita teu amigo amiúde, pois ervas daninhas tomam conta da estrada pela qual ninguém passa”, diz o provérbio.

A distância que provoca lágrimas de saudade, quando se sente a incompletude do mundo, porque, faltando o outro, falta tudo. A distância que leva ao prazer solitário, única forma de se ter quem falta na mesma cama. A distância que produz poemas, crônicas, contos e romances – textos que serão lidos por outros, solitários, nos cafés, padarias, consultórios médicos, em casa, na sala enorme enquanto o relógio bate 2h da manhã e o sono não vem. No ônibus que atravessa a avenida da metrópole, enquanto passageiros sobem e descem do coletivo, e a imaginação voa até o lugar onde se gostaria de estar, àquela hora em que o sol se põe e tinge o céu de um laranja inesquecível.

Mas a distância também pode estar acompanhada de uma certa alegria, um bálsamo talvez: quando sabemos que, apesar ou por causa da separação, alguém pensa em nós.

Leio um antigo ditado português que proclama: “Quantos amores que resistiram à ausência, a presença matou!”. Nem sei se isso pode ser chamado de “amor”. Melhor seria chamar de “idealização”, uma idealização que os amantes alimentavam e que, quando juntos, não suportou as diferenças um do outro. Talvez fosse a própria distância (a impossibilidade da união de seus corpos) o fetiche que mantinha acesa a chama do desejo. Talvez… a psique humana é complexa. A distância e a impossibilidade são, para muitas criaturas, o fogo que arde e excita. Uma vez provado do fruto, o apetite se esvai.

O fato é que, quando o sentimento é sincero – seja ele amor, amizade, carinho, cuidado, estima etc. – a distância geralmente é dolorida. Queremos a proximidade, o contato, a doçura dos olhos, o calor que emana e que nos faz bem. Geralmente, a distância machuca.

Por outro lado, nem toda distância é ruim: muitas vezes precisamos nos afastar de tudo o que nos causa dor, tristeza, mágoa e infelicidade – a capacidade de nos libertarmos do que nos oprime e do que não nos faz bem, do que nos diminui e nos humilha. A distância que significa a retomada da autoestima e da alegria de viver. A distância que tomamos do mundo para nos aproximarmos de nós mesmos.

E, ainda que desejemos a proximidade de tudo o que amamos, ou julgamos amar, podemos avaliar melhor nossos sentimentos quando guardamos um certo distanciamento. Não se consegue observar bem uma fotografia que esteja colada aos olhos.

Por fim, a constatação de que há pessoas próximas que são distantes, enquanto outras, distantes, estão e estarão sempre próximas – porque nos entendem e nos fazem bem à alma e ao coração.    

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Professor, lendo esta belíssima Crônica, lembrei-me da música do Roberto Carlos “A Cigana”. “Na distância vi seu vulto desaparecer /
    Nunca mais seu rosto eu pude ver / Hoje você anda por lugares que eu não sei / Vive nos meus sonhos e nas lembranças que guardei
    Disse tanta coisa quando leu a minha mão / Você só não previu a minha solidão”.

    A música fala sobre a distância de uma pessoa que leu a mão dele e ele nunca mais a viu. Por onde ela andará? Por onde andará a nossa distância? Há pessoas que estão distantes, só que estão próximas, outras estão próximas, só que distantes.

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