Para Dalton Trevisan*
Todo dia, o ônibus lotado. Depois, o metrô. A caminhada até a loja em que ela é balconista. O gerente casado que assedia a funcionária e ainda a ameaça de demissão.
O marido na mesa de baralho no boteco do bairro, apostando o que tem e o que não tem o dia inteiro. Adianta falar para ele parar de beber e de jogar? Quantas vezes pediu que ele arranjasse um emprego! Nada. Só cachaça e jogo. Agora, pelo menos, parou de ser violento. Chega tão bêbado que não tem força para brigar com a mulher. Menos ruim assim. Em casa, vive dormindo. Qual era mesmo o nome do filme que ela tinha visto uma vez? “Vício Maldito”. Esse!
Os dois filhos que nada querem com a vida. Onde foi que ela errou? A pergunta não sai de sua cabeça. Gêmeos tão bonitos, criados com tanto amor e dedicação! A juventude dos dois desperdiçada – quando foi que começaram a se perder mesmo? Na primeira dose de cocaína ou já no primeiro cigarro de maconha com os colegas da escola?
A reunião com os professores a que ela não pôde ir. “Não posso faltar no trabalho, seu diretor”. E os dois foram reprovados. “Pais ausentes dá nisso, dona!”. Desistiram da escola. Não foram mais. Dois jovens que se viram com pequenos furtos e trambiques nos bairros da vizinhança. Conhecidos da polícia, estão sempre fugindo e são malvistos pelos moradores mais antigos da vila.
Os vizinhos mais antigos respeitam a mulher trabalhadora e esforçada, mas sempre têm aqueles que arranjam um pretexto para criticá-la e responsabilizá-la pela conduta dos filhos e do marido. Gente maldosa! Não veem que ela sai de manhã e, com seu salário, seu pequeno salário, consegue manter a casa humilde com o mínimo de dignidade possível.
O carro velho do marido enferrujando no quintal descoberto. Não tem serventia. Nem os meninos se interessam por aquele ferro velho. Sol, chuva, vento, sereno… e o carro sendo corroído aos poucos. A casa não fica atrás: o que foi uma construção bonitinha hoje é casebre com janelas e portas aos pedaços. Paredes descascadas, telhas quebradas, chove na sala e nos quartos. Ninguém arruma porque não tem interesse. Três homens que não valem a mulher que os sustenta.
A namorada de um dos filhos que apareceu grávida. Menor de idade, 16 anos, e já de barriga. Outra encostada, sem ambição na vida, bebê gerado sem amor, aposta a futura avó.
Do outro filho, os vizinhos dizem outras maledicências. “Vende o corpo para outros homens para comprar drogas. É garoto de programa, basta pagar para fazer o que quiser com ele”. Para a mãe, ele nega.
Tudo isso dói na alma da mulher. Quando o sofrimento terá fim? Talvez se a família se mudasse daquele lugar horrível, daquele bairro sem asfalto, sem luz na rua, sem um posto policial nas redondezas. Lugar abandonado, que só é lembrado por políticos em época de eleição. Hipócritas! Mas ela duvida que tudo mudasse: não vê mais jeito.
No ônibus e no metrô, de volta, ela vai pensando em tudo isso. Pensa na juventude que se foi – tem agora 44 anos – e nos planos que deixou pelo caminho. Casou-se por amor, mas não tem certeza do que o marido sentia. Sentia? E aquilo algum dia sentiu alguma coisa? Sempre caladão, sem expressar sentimentos.
O sonho de se tornar mãe. E logo de gêmeos! Felicidade em dosa dupla. Dores de cabeça também. Tantos sonhos de uma vida simples que não se concretizaram.
Na loja, é a vendedora mais experiente, a funcionária mais antiga e mais competente também. Vive de comissões. Enquanto atende aos clientes, vai rezando para que os homens de sua casa estejam bem. Quando seu celular toca, é sempre um susto, pois aprendeu a ser pessimista. “Notícia boa não vem. Que notícia boa eu podia receber?”, queixa-se a uma amiga na hora do almoço. A outra, triste, abaixa a cabeça e continua a comer.
No fim do expediente, ela passa no mercadinho e compra um pacote de salsichas com uma lata de molho de tomate. Cansada da loja, fará um arroz e esquentará as salsichas com molho para o marido que virá alcoolizado e para os filhos, que já devem estar em casa à espera da mãe. A futura nora estará lá também? Possivelmente. Mais um parasita, mais uma boca para ser alimentada.
Ela caminha devagar pela rua cheia de buracos e pedras. Cumprimenta uma vizinha aqui, outra ali. Passa por uma rodinha de mulheres e sabe que é o assunto da fofoca. Está cansada demais para se importar com isso. Ergue a cabeça e segue em frente, mas os olhos estão marejados.
Abre o portão enferrujado e entra em seu castelo. A figura do marido dormindo no sofá não a surpreende. Os filhos ainda não chegaram. Virão quando a fome apertar. Virão para o aconchego do lar quando a rua não lhes bastar mais.
E, em sua rotina inútil e sem esperança, ela faz lembrar o mito grego de Sísifo: dia após dia, por mais que se esforce, nada muda.
Como um castigo dos deuses.
*Dalton Trevisan, (Curitiba, 14 de junho de 1925 – Curitiba, 09 de dezembro de 2024). Importante escritor, que se notabilizou por seus livros de contos e por seu estilo direto, enxuto e extremamente realista. Seu livro mais famoso é “O Vampiro de Curitiba” (1965), apelido com o qual também era conhecido por ser muito reservado e avesso a entrevistas e aparições públicas.
Foi eleito, por unanimidade, vencedor do Prémio Camões de 2012, ano em que também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.
O Mito de Sísifo narra a história do astuto rei de Corinto que, ao desafiar as regras divinas e enganar a Morte, foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta, simbolizando a luta incessante e sem propósito contra forças maiores.
4 Comments
Conheço muitas pessoas que vivem nesta situação aqui na cidade onde resido! Mães que labutam diariamente para sobreviverem, trabalham duramente colarem o sustento em suas mesas. Enquanto os “maridos” só querem saber de farra e encostar a “pança” no bar. Já os filhos! Bem, os filhos….
Olá Prof Vitor
Bela crônica em homenagem a Dalton Trevisan.
Excelente contista do cotidiano.
Parabéns
Bela Homenagem ao Escritor Dalton Trevisan. Contos realistas que nos dão um soco no estômago pela veracidade dos mesmos. Bela e Triste Crônica desta Mulher de 44 anos sem sonhos e de uma tristeza sem tamanho,diria Amargura. Tocante história que comove,mas todos os dias vemos estas Mulheres e Homens que vão vivendo sem nem saber o motivo.
Adorei, ótima crônica, linda homenagem para o escritor que escreveu com detalhes a vida sofrida de uma mulher, obrigada.