
O que você faria se tivesse o poder de ficar invisível? Qual comportamento adotaria caso pudesse agir sem o julgamento das pessoas e, mais, sem ser punido pelos atos cometidos? Essas são as perguntas que “O Anel de Giges” nos faz.
No segundo livro de Platão, o filósofo grego nos conta a história fictícia: após uma grande tempestade, uma fenda se abriu no solo, atraindo a atenção do modesto pastor Giges. Esse desceu pelo vão aberto e encontrou um morto de tamanho acima do normal, totalmente nu, usando um anel de ouro. Seduzido pela joia, Giges tomou-lhe o anel e o pôs no próprio dedo.
Dias depois, em uma assembleia de pastores, o camponês fez uma descoberta que o deixou atônito e encantado: ao girar o anel no dedo, Giges se tornava invisível – e percebeu isso porque as pessoas começavam a falar dele como se não estivesse presente. Notou que, se girasse o anel para dentro, ele desaparecia; para fora, tornava-se visível novamente. A história prossegue de maneira curiosa e bem ao gosto de uma tragédia grega: Giges é eleito delegado e vai despachar com o rei de Sardes; corteja a rainha e, com o poder do anel, a cumplicidade e a ajuda da amante, assassina o rei e toma-lhe o trono.
Moral da história: o anel removeu o verniz dos valores morais que Giges aparentava possuir; o poder da invisibilidade despertou o homem que jazia em silêncio dentro do humilde pastor, um homem sedento de riquezas e que acabou por cometer três graves crimes – adultério, regicídio e golpe de Estado. Platão é direto: “poder fazer” não significa “dever fazer”.
Quando se pensa numa nação como o Brasil, por exemplo, em que Direitos e Deveres constituem uma “balança desregulada”, a questão do “Anel de Giges” acaba funcionando como uma outra metáfora.
Na Semiótica das Culturas, dizemos que a “Cidadania” só é possível quando os Direitos e os Deveres de alguém estão em equilíbrio. Denominamos de “Povo” aqueles que cumprem seus “Deveres”, mas cujos “Direitos” quase nunca são respeitados – a balança está torta.
Seguindo o raciocínio, temos uma “Elite” (sobretudo política): a camada dominante, sustentada pelo “Povo”, que se impõe pelo poder e que tem seus “Direitos” preservados, mas que quase nunca cumpre com seus “Deveres” – a balança continua torta, mas agora para o outro lado. Nessa casta, são os privilégios que predominam.
(Na combinação oposta à da “Cidadania”, “Não-deveres” e “Não-direitos” definem a condição dos indigentes, moradores de rua, isto é, todos os seres de quem não se exige nada, e a quem tampouco se concede alguma coisa, como uma vida minimamente digna.)
É como se a “Elite”, acima descrita, usasse permanentemente o Anel de Giges – como se fosse invisível perante a lei, permitindo-se a si mesma passar despercebida, debochando de tudo e de todos, principalmente do “Povo” que trabalha e a sustenta com impostos de um país de Primeiro Mundo, sendo um país de Terceiro.
Uma “Elite” à qual o “Povo” não tem acesso, uma camada da população acima do bem e do mal, aparecendo somente quando lhe é conveniente, “girado seu anel” ao bel prazer, sem se importar com as consequências de seus atos. E, aqui, não faço distinção de partidos, nem me incluo na polarização imbecil e irracional que tomou conta deste país.
No plano individual, a história de Platão não é menos instigante. Segundo a Psicanálise, todos temos dentro de nós um “médico e um monstro”, para citar o famoso romance de terror do escocês Robert Louis Stevenson (século 19). Assim, em maior ou menor grau, todos os seres humanos trazem segredos e desejos que, uma vez isentos do julgamento e da punição da sociedade, poderiam ser realizados. Em que medida, munidos do anel que nos tornasse invisíveis, daríamos vazão a essas recônditas (e condenáveis) fantasias é a pergunta que fica.
A ética diz respeito a tudo o que eu faria quando ninguém estivesse me observando – e mais: a tudo o que não me envergonharia diante dos homens se eu fosse descoberto. A Virtude e a Paz só seriam possíveis em harmonia com a própria consciência.
Acho que muitas pessoas de formação ética e moral sólida não se renderiam à tentação do anel, mesmo em tempos de tantos escândalos e de tanta impunidade. Creio que muitos ainda ajam de forma correta para ficarem em paz consigo mesmos e não pelo medo de serem punidos – quando se deixa de cometer um ato antiético somente por temor à lei, algo está errado. É claro que a corrupção pode ser verificada em todos os níveis da nossa sociedade, mas ainda existem muitas pessoas bastante íntegras neste país.
Na história de Giges, a invisibilidade não esconde: ela paradoxalmente desmascara. Regras sociais limitam o comportamento, mas não moldam o caráter.
Se “o poder absoluto corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, não há solução possível para a Elite política de que falei acima – mas acho isso muito cômodo. Nossos governantes poderiam perfeitamente dizer “não” à imoralidade, se quisessem.
Poderiam deixar de ser a casta que vive de aparências, que se julga acima da lei, pois tem a certeza da impunidade e da “invisibilidade” de seus atos. Poderiam, por exemplo, criar vergonha e deixar de ser um apanhado de mentirosos, corruptos e picaretas.
2 Comments
Professor, se eu tivesse o poder de ficar invisível eu acredito que ” eu não responderia pelos meus atos!”
Pensei tanta coisa, mais tanta coisa que minha cabeça deu vários nós. Concordo com tudo, principalmente na frase: “nossos governantes poderiam perfeitamente dizer ‘não’ à imoralidade, se quisessem”. Se quisessem, mas como é cômodo para eles, estamos como estamos, inertes. Eu acompanho a política de minha cidade, e pelo andar da carruagem só mesmo um anel para dar jeito nisso tudo.
Crônica para reflexão, e que reflexão.
Olá Prof Vitor
Brilhante crônica. Citações de Voltaire, Platão e o famoso Anel de Giges. Esperar ética dos nossos políticos, um bando de delinquentes (Pondé)
Enfim, ética, honestidade, caráter são valores inegociaveis.
Parabéns pela crônica