DISTÂNCIAS
19 de novembro, 2025
Mostrar tudo

ÉTICA

O que você faria se tivesse o poder de ficar invisível? Qual comportamento adotaria caso pudesse agir sem o julgamento das pessoas e, mais, sem ser punido pelos atos cometidos? Essas são as perguntas que “O Anel de Giges” nos faz.

No segundo livro de Platão, o filósofo grego nos conta a história fictícia: após uma grande tempestade, uma fenda se abriu no solo, atraindo a atenção do modesto pastor Giges. Esse desceu pelo vão aberto e encontrou um morto de tamanho acima do normal, totalmente nu, usando um anel de ouro. Seduzido pela joia, Giges tomou-lhe o anel e o pôs no próprio dedo.

Dias depois, em uma assembleia de pastores, o camponês fez uma descoberta que o deixou atônito e encantado: ao girar o anel no dedo, Giges se tornava invisível – e percebeu isso porque as pessoas começavam a falar dele como se não estivesse presente. Notou que, se girasse o anel para dentro, ele desaparecia; para fora, tornava-se visível novamente. A história prossegue de maneira curiosa e bem ao gosto de uma tragédia grega: Giges é eleito delegado e vai despachar com o rei de Sardes; corteja a rainha e, com o poder do anel, a cumplicidade e a ajuda da amante, assassina o rei e toma-lhe o trono.

Moral da história: o anel removeu o verniz dos valores morais que Giges aparentava possuir; o poder da invisibilidade despertou o homem que jazia em silêncio dentro do humilde pastor, um homem sedento de riquezas e que acabou por cometer três graves crimes – adultério, regicídio e golpe de Estado. Platão é direto: “poder fazer” não significa “dever fazer”.

Quando se pensa numa nação como o Brasil, por exemplo, em que Direitos e Deveres constituem uma “balança desregulada”, a questão do “Anel de Giges” acaba funcionando como uma outra metáfora.

Na Semiótica das Culturas, dizemos que a “Cidadania” só é possível quando os Direitos e os Deveres de alguém estão em equilíbrio. Denominamos de “Povo” aqueles que cumprem seus “Deveres”, mas cujos “Direitos” quase nunca são respeitados – a balança está torta.

Seguindo o raciocínio, temos uma “Elite” (sobretudo política): a camada dominante, sustentada pelo “Povo”, que se impõe pelo poder e que tem seus “Direitos” preservados, mas que quase nunca cumpre com seus “Deveres” – a balança continua torta, mas agora para o outro lado. Nessa casta, são os privilégios que predominam.

(Na combinação oposta à da “Cidadania”, “Não-deveres” e “Não-direitos” definem a condição dos indigentes, moradores de rua, isto é, todos os seres de quem não se exige nada, e a quem tampouco se concede alguma coisa, como uma vida minimamente digna.)

É como se a “Elite”, acima descrita, usasse permanentemente o Anel de Giges – como se fosse invisível perante a lei, permitindo-se a si mesma passar despercebida, debochando de tudo e de todos, principalmente do “Povo” que trabalha e a sustenta com impostos de um país de Primeiro Mundo, sendo um país de Terceiro.

Uma “Elite” à qual o “Povo” não tem acesso, uma camada da população acima do bem e do mal, aparecendo somente quando lhe é conveniente, “girado seu anel” ao bel prazer, sem se importar com as consequências de seus atos. E, aqui, não faço distinção de partidos, nem me incluo na polarização imbecil e irracional que tomou conta deste país.

No plano individual, a história de Platão não é menos instigante. Segundo a Psicanálise, todos temos dentro de nós um “médico e um monstro”, para citar o famoso romance de terror do escocês Robert Louis Stevenson (século 19). Assim, em maior ou menor grau, todos os seres humanos trazem segredos e desejos que, uma vez isentos do julgamento e da punição da sociedade, poderiam ser realizados. Em que medida, munidos do anel que nos tornasse invisíveis, daríamos vazão a essas recônditas (e condenáveis) fantasias é a pergunta que fica.

A ética diz respeito a tudo o que eu faria quando ninguém estivesse me observando – e mais: a tudo o que não me envergonharia diante dos homens se eu fosse descoberto. A Virtude e a Paz só seriam possíveis em harmonia com a própria consciência.

Acho que muitas pessoas de formação ética e moral sólida não se renderiam à tentação do anel, mesmo em tempos de tantos escândalos e de tanta impunidade. Creio que muitos ainda ajam de forma correta para ficarem em paz consigo mesmos e não pelo medo de serem punidos – quando se deixa de cometer um ato antiético somente por temor à lei, algo está errado. É claro que a corrupção pode ser verificada em todos os níveis da nossa sociedade, mas ainda existem muitas pessoas bastante íntegras neste país.

Na história de Giges, a invisibilidade não esconde: ela paradoxalmente desmascara. Regras sociais limitam o comportamento, mas não moldam o caráter.   

Se “o poder absoluto corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, não há solução possível para a Elite política de que falei acima – mas acho isso muito cômodo. Nossos governantes poderiam perfeitamente dizer “não” à imoralidade, se quisessem.

Poderiam deixar de ser a casta que vive de aparências, que se julga acima da lei, pois tem a certeza da impunidade e da “invisibilidade” de seus atos. Poderiam, por exemplo, criar vergonha e deixar de ser um apanhado de mentirosos, corruptos e picaretas. 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Professor, se eu tivesse o poder de ficar invisível eu acredito que ” eu não responderia pelos meus atos!”
    Pensei tanta coisa, mais tanta coisa que minha cabeça deu vários nós. Concordo com tudo, principalmente na frase: “nossos governantes poderiam perfeitamente dizer ‘não’ à imoralidade, se quisessem”. Se quisessem, mas como é cômodo para eles, estamos como estamos, inertes. Eu acompanho a política de minha cidade, e pelo andar da carruagem só mesmo um anel para dar jeito nisso tudo.
    Crônica para reflexão, e que reflexão.

  2. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Brilhante crônica. Citações de Voltaire, Platão e o famoso Anel de Giges. Esperar ética dos nossos políticos, um bando de delinquentes (Pondé)
    Enfim, ética, honestidade, caráter são valores inegociaveis.
    Parabéns pela crônica

Deixe um comentário para Angelo Antonio Pavone Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *