PRISÕES
16 de dezembro, 2025
MAIS
30 de dezembro, 2025
Mostrar tudo

O NATAL EM PALAVRAS E ATOS

“Pessoas cruéis se dizem um modelo de sinceridade” – Tennessee Williams (1911-1983), dramaturgo norte-americano.

 

Está lá, em qualquer Gramática do Português: “Eufemismo – do grego “eufemismos” (‘eu’, boas; ‘pheme’, modo de dizer), é a atenuação de uma ideia ou expressões grosseiras por meio de boas palavras. Figura de estilo com a qual se procura evitar a grosseria, a agressividade, o constrangimento etc.”.

Sempre digo que o eufemismo é o “contrário” da gíria: enquanto esta não tem qualquer compromisso com a “diplomacia”, digamos, aquele é mais cauteloso e procura a delicadeza. Hoje, com as relações humanas cada vez mais ambíguas e complexas, o uso do eufemismo poderia vir a atenuar conflitos e as consequentes mágoas e feridas que provocamos uns nos outros – ainda mais na época do Natal!

Talvez fiquemos mais sensíveis com o clima de solidariedade, compaixão, amizade, carinho, respeito e doçura que (supostamente) toma conta de todos. Talvez nos sintamos mais propensos ao abraço, ao perdão, ao sorriso, à gentileza para com os que nos são importantes. O problema, no entanto, nasce quando não damos importância a nada disso para com desconhecidos ou pessoas no trabalho da quais somos superiores hierárquicos – e até mesmo para com aquele parente que, por alguma razão, “não nos desce”.

Diz um ditado antigo que “da mínima brincadeira à maior ofensa, não há grande distância”. E não falo aqui do politicamente correto – falo mesmo da grosseria, da palavra solta sem a preocupação com as consequências que ela trará.

Um exemplo: meu irmão sofreu grave acidente de carro na semana em que iria se casar. O fato é conhecido por meus amigos de longa data, que acompanharam todo o drama da minha família. Foram meses no hospital, primeiro em coma, depois sobrevivendo à base de aparelhos. Um sofrimento do qual eu gostaria que ele, obviamente, e meus pais tivessem sido poupados na vida. Lembro de uma tarde, uma semana depois do acidente, eu estava em casa, e minha mãe entrou chorando muito, muito mesmo, pois o médico havia lhe dito, assim, sem tirar nem pôr: “Seu filho não vai sobreviver mais uma semana!”. Um primor de delicadeza e tato! Será que aquele cidadão não poderia ter escolhido melhor as palavras para falar com uma mãe que sofria e chorava pelo filho em coma? Ainda que ele estivesse certo, não havia outro modo de dizer isso à minha mãe? Ah, é preciso que eu diga: meu irmão está vivo – 31 anos depois da previsão daquele médico, meu irmão apresenta sequelas, mas está muito bem de saúde! Pois é…

Natal, para o bem ou para o mal, é época de reuniões. Jantares, almoços, churrascos, ceias – e a maioria de nós vai, em nome da tradição, se reunindo com pessoas que às vezes não têm nada a ver conosco. Tive uma aluna que tentava, pelo quarto ano consecutivo, entrar na faculdade de Medicina. E, em todos aqueles anos, ela ouvia de uma tia, na festa da família: “Não passou de novo? Ah, eu já sabia que você não ia conseguir!”. Um outro aluno me disse que um parente, na festa da família e na frente de todos, sempre o constrangia ao lhe cobrar uma namorada: “Continua sozinho, fulano? Não faz sucesso com as mulheres? Tô desconfiado, hein…”.

Se nos for impossível a demonstração de amor, pratiquemos pelo menos o “eufemismo do distanciamento”, como costumo dizer. Manter a distância, em nome da paz e do sossego, pode ser um bom remédio para estas festas de fim de ano, que trazem alegria para muitos e (sejamos sinceros!) apreensão, aborrecimento e ansiedade para outros tantos.

Mais vale a não ofensa do que um presente caríssimo que venha acompanhado de alguma ironia ou comentário jocoso. Mais vale o abraço sincero do que uma caixa linda que nos venha às mãos nos irritando e nos magoando.

Saibamos silenciar ou, pelo menos, repito, atenuar nossas palavras e ideias.

Desejo a todos o melhor Natal que puderem e desejarem ter – seja com familiares, seja com amigos ou sozinhos, mas sem a agressividade e as ofensas que grassam por aí, porque a paz interior é fundamental.

Um Natal com a gentileza e a delicadeza dos eufemismos – sem o veneno e a agressividade das ironias que podem magoar.

Somos capazes disso! Sempre somos.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

3 Comments

  1. Clarice Keri disse:

    Muito bem colocado, conheço muitos que não sabem, ou não querem, ser delicados, atenciosos, carinhosos até, porque não, com os próximos , nos tornamos frios e egocêntricos? Triste, também desejo um Natal mais afetuoso à todos, e obrigada Tim, como sempre você vai no âmago dos sentimentos.

  2. Que maravilha de Crônica! Permita-me relatar uma passagem com o meu finado avô, pai da mãe! Reunidos em casa para a ceia de Natal, meu avô soltou uma pérola: ” só falta você para me dar um bisneto”. Rapidamente soltei a minha pérola: “Vô, fique tranquilo, disso eu não morrerei”. Todos sorriram e o assunto acabou. Fui rápido e prático – simples assim.
    Linda Crônica! Feliz Natal.

  3. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Um primor de crônica. Não há o que tirar nem pôr.
    Faço minhas as suas palavras nesta época de ofensas e agressividades gratuitas.
    Parabéns pela crônica

Deixe um comentário para Clarice Keri Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *