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UM DISCO E MUITAS LEMBRANÇAS

A propósito de uma conversa casual com um grande amigo, ele me fala de alguns amigos seus, músicos, que formaram um grupo nos anos 80 e que gravaram um único disco. O Grupo se chamava “Quintaessência” e trazia uma música brasileira de primeira linha, com lindos arranjos e belas melodias, além de vocais perfeitos.

Ele me manda o link do Youtube – o LP está todo lá. Eu, curiosidade despertada, acesso e começo a ouvir o LP. É uma manhã de sábado e, de repente, sou levado para um tempo bom da minha vida, o tipo de mágica que a música é capaz de fazer com o coração da gente.

Lá pela terceira ou quarta música, uma luzinha se acende na minha cabeça! Eu conheço algumas das canções – sou transportado ao restaurante do Estadão, lá no Bairro do Limão, onde, enquanto almoçávamos, ouvíamos a programação da Rádio Eldorado – programas como “Canto Geral” e o “Canta, Brasil”. E uma onda de nostalgia me invade – pessoas, fatos, situações, minha vida naquele meu primeiro ano no jornal (1985), minhas inseguranças… um garoto de 21 anos tão bobinho e tão tolo diante do mundo e da vida!

As músicas vão prosseguindo. São boas, são muito boas! E ficaram ainda melhores com o tratamento que o grupo deu a elas. Composições de Milton Nascimento e Fernando Brant, Djavan, Gilberto Gil… uma faixa composta por um dos componentes, Ricardo Breim, amigo do meu amigo, me emociona bastante: “Tema para quem vai nascer”, apenas instrumental, suave, um tanto melancólica, daquelas canções que nos põem para pensar e mexem com a gente bem lá no fundo.

Talvez eu é que esteja melancólico, nesta manhã de sábado, com todas as lembranças que me vieram agora. Olho para o prédio do jornal, sempre que passo lá na Marginal Tietê, com um certo pesar: acho que, na minha imaturidade, não aproveitei ao máximo os seis anos que lá trabalhei com gente muito competente – os jornalistas da “velha guarda”, aqueles que viviam o jornalismo sem as facilidades de hoje. A própria função que eu exercia lá – conto noutra oportunidade – já demonstrava a dificuldade daqueles tempos.

Guardadas as devidas proporções, comparo um pouco meu primeiro dia no jornal com as primeiras linhas de “O Ateneu”, de Raul Pompeia: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. E encontrei mesmo. Um outro mundo que tinha muito a me ensinar!  

Voltando ao LP, o Quintessência me fez lembrar da chamada Vanguarda Paulistana – nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Eliete Negreiros, Vânia Bastos e Ná Ozetti entre outros. O movimento foi de mais ou menos 1979 a 1985. Pelo que estou ouvindo, o Quintaessência não ficou devendo nada àquele pessoal em termos de qualidade vocal e harmônica.

Como já disse, meu amigo me informa que o grupo gravou somente esse LP, que traz uma capa muito bonita, muito colorida, com gaivotas atrás das quais se vê um arco-íris. Vou à internet e descubro que existem cópias à venda, que variam de R$ 200,00 a R$700,00! Raridade mesmo.

Tomado de nostalgia, fico me lembrando dos encartes dos discos com as letras das músicas, fotos dos artistas, informações sobre a equipe técnica etc. Ainda tenho alguns discos de vinil aqui em casa, que eu preservei do tempo e da poeira dos anos. Dei muitos de presente a um amigo que havia comprado uma vitrola e que, muito mais jovem do que eu, estava descobrindo o “som do vinil”.

Fico perdido em lembranças, nostálgico que sou, e nem sinto as horas passarem. É isso que alimenta a saudade – a gente não percebe o tempo: os dias, meses e anos vão passando e a gente sente – com razão ou não – que não aproveitou bem certas épocas da vida. Pode ser só impressão, pode ser que não tenhamos aproveitado mesmo.

O “disco” chega ao fim. Sou despertado dos meus pensamentos e quero agradecer ao meu grande amigo por ter me falado do grupo e por ter me enviado o link. Ele ainda não sabe, mas deixou minha manhã de sábado mais bonita e mais poética. Obrigado, Batista!

Sinto certa saudade das manhãs todas em que eu acordava e escolhia um disco para ouvir enquanto tomava o meu café. Saudade também de ir a uma loja e escolher os LPs que, dali em diante, fariam parte da minha casa, dos meus dias, da minha história.

A história da vida da gente é contada de tantas formas! A música é uma delas – e tem o poder de nos pegar de surpresa, trazendo lembranças que julgávamos perdidas.

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Professor, após a leitura da Crônica fui pesquisar esse disco! Um disco “diferente” para os padrões atuais – aproveitei e perguntei para 3 amigos que apreciam esse estilo musical e eles me disseram que não conheciam. Com certeza passara a apreciar.

  2. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Bela crônica
    A música tem o poder de nos transportar para mundos distantes. E algumas vezes nos faz revisitar momentos “esquecidos” de nossas vidas
    Parabéns pela crônica

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