SONETOS IV – ANTERO DE QUENTAL
16 de março, 2026
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SONETOS V – RAIMUNDO CORREIA

Convido o leitor aos versos de mais um belo soneto em língua portuguesa.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.

Hoje, escolhi um poema de Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859-1911), escritor, professor e diplomata que, com Olavo Bilac e Alberto de Oliveira, compunha a chamada “Tríade Parnasiana Brasileira”.

Os mais velhos sempre nos ensinaram o perigo que corremos com julgamentos apressados e opiniões formadas sobre as pessoas, sem a devida cautela. Em “Mal Secreto”, Raimundo Correia nos fala exatamente disso: de nos deixarmos levar pela “primeira impressão” e, consequentemente, sermos induzidos ao erro quanto à aparência de alguém.

“Não julgue um livro pela capa”, “Nem tudo o que reluz é ouro”, “As aparências enganam”, “Quem vê cara não vê coração” são alguns dos antigos ditados que perpassam os versos abaixo. Comumente, nos deixamos enganar e até nos empolgamos pela imagem e/ou discurso de desconhecidos – e quantas vezes nos decepcionamos ou nos chocamos com a realidade que eles escondem sobre si e suas vidas!

Os versos de Raimundo Correia são fortes e causam uma certa aversão no leitor. A gente não gosta de pensar que pode estar sendo enganado – seja por alguém, por um discurso falacioso ou por uma propaganda mentirosa.

Em tempos de redes sociais – leiam-se ostentação, mentiras, falsas alegrias, felicidade “fabricada”, futilidade e vazio existencial –, a aparência tem sido mais valorizada do que nunca, revelando o vazio de quem ostenta e de quem se deixa fascinar pela exibição. Como nos diz a Bíblia, “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”.

Por outro lado, de que “Mal” (ou “Males”) o poema nos fala? Podemos pensar na mágoa, no ressentimento, na raiva, no arrependimento, na decepção, na frustração, no medo, na tristeza… a lista é grande.

No âmbito da ética, esse “Mal” que se esconde e não quer ser descoberto pode nos fazer lembrar da corrupção, do compadrio, do conchavo, da propina, do suborno, da desonestidade, do “jeitinho” – moedas frequentes na troca de favores da economia e da política brasileiras.

Ah, se os políticos desta terra estampassem nos rostos suas verdadeiras intenções!

Parto, talvez ingenuamente, do princípio de que uma pessoa desonesta, que cause mal a centenas de milhares de pessoas, não possa ser feliz em seu íntimo – e que seu sorriso estampado em jornais e redes sociais só possa ser mesmo um sorriso que oculte o mal secreto que, secretamente, corrói esse ser.

São só conjecturas minhas… ingênuas conjecturas minhas.

 

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora 
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce, 
Tudo o que punge, tudo o que devora 
O coração, no rosto se estampasse; 
  
Se se pudesse o espírito que chora, 
Ver através da máscara da face, 
Quanta gente, talvez, que inveja agora 
Nos causa, então piedade nos causasse! 
  
Quanta gente que ri, talvez, consigo 
Guarda um atroz, recôndito inimigo, 
Como invisível chaga cancerosa! 
  
Quanta gente que ri, talvez existe, 
Cuja ventura única consiste 
Em parecer aos outros venturosa!

                     

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

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