
Prosseguindo com a série de sonetos que valem a pena ser (re)lidos, hoje trago versos mais sensuais do que românticos.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Ao longo dos séculos, foram escritos belíssimos sonetos que exploraram os mais diversos temas, sobretudo o Amor, a Paixão, o Desejo, a Dor da separação etc. Alguns são bem conhecidos; outros, nem tanto.
A carioca Gilka da Costa Melo Machado (1893-1980) era de família intelectual, foi casada e teve dois filhos. Sofreu misoginia e racismo por parte de escritores e críticos brasileiros contemporâneos seus – alguns se referiam a ela como “uma simples mulatinha escura”. Não fosse isso suficiente, também era considerada ousada e indecorosa para uma mulher de sua época: seus versos exploravam não só temas como amor e paixão, mas também a sensualidade do corpo feminino e seu direito ao prazer. Gilka era por demais transgressora – e obviamente incomodava. Ainda que tachada de devassa e libertina, conseguiu ser a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras.
Como se pode ver no soneto abaixo, a autora explora seus temas favoritos: quem fala no poema não se contenta apenas em descrever a saudade e a solidão enquanto pensa no ser amado ausente – com o pensamento e como consequência dele, vêm o desejo, a sensualidade, a exposição e o prazer que tomam conta do eu-lírico. A mulher que se expressa nos versos descreve a si mesma num descampado, sozinha, apartada do contato físico, mas nem por isso destituída do prazer carnal. O texto é todo ar e fogo – o primeiro alimenta o segundo, que incendeia cada verso.
O poema é como um quadro na parede, mostrando uma mulher que se imagina nua, em harmonia com a natureza, suficientemente apaixonada e emancipada, sem pudores e amarras – livre como não se cogitava que uma mulher pudesse ser, numa sociedade puritana e machista, no começo do século passado.
Com o perdão da rima, muito antes de Adelaide Carraro e Cassandra Rios, houve Gilka Machado.
NA PLENA SOLIDÁO DE UM AMPLO DESCAMPADO
Na plena solidão de um amplo descampado,
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda afeição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.
O Vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado!
que te sinto no Vento e a ele, feliz, me exponho.
Com carícias brutais e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua…
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças…
E não podes saber do meu gozo violento,
quando me fico assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à Volúpia do Vento!