
Nos versos desta postagem, um sentimento efêmero e inconstante. A Felicidade que chega, mas que não fica; a Felicidade que nem sempre reconhecemos e que, durante um tempo, nos faz sorrir, mas que logo parte, deixando só o vazio.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969) nasceu em Campinas (SP) e foi, além de poeta, cronista, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e escritor de livros infantis. Respeitado nome do Modernismo brasileiro, participou da organização da Semana de 22, no Teatro Municipal de São Paulo.
No soneto abaixo, o eu lírico narra a visita da Felicidade, que bate à sua porta e invade seu mundo sem pedir licença – apenas se fazendo presente. Uma ótima metáfora para as surpresas boas da vida.
Ele convive com ela sem questionamentos. Não sabe, porém, que ela não veio para ficar. A Felicidade deste mundo é passageira, dizem os versos. Quando noivos passam pela estrada – jovens que se casam e estão, portanto, alegres – a Felicidade se despede e diz quem era, talvez numa alusão ao fato de, com frequência, não percebermos como somos privilegiados e só darmos valor àquilo que perdemos – quando perdemos. Quantas vezes a Felicidade nos escapa como areia por entre os dedos!
Resta, a quem fala no poema, tomar consciência da Alegria que se foi – e, melancólico, viver apenas de lembranças.
FELICIDADE
Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada!”
E eu respondi: “Bom dia, filha morta!”
Entrou: e nunca mais me disse nada…
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada…
Então chamou-me e disse: “Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!”
E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era…
E nunca mais eu me senti feliz!
(Deixo o link para quem quiser ouvir os versos na belíssima leitura do Mundo dos Poemas:
https://www.youtube.com/watch?v=3bpNrJhZmFs )
1 Comments
Professor, uma revelação tardia reforçando uma ideia comum com a nossa experiência! Muitas vezes, a gente só reconhece os momentos felizes que passamos quando eles já passaram. Que coisa.