

Hoje, trago versos de um grande amigo.
Daniel Nascimento é advogado e professor, chegando a me surpreender com a qualidade dos versos que posto abaixo. São versos intensos e provocantes, a começar pelo título do poema.
É um prazer muito grande postar sua poesia e parabenizá-lo pela qualidade de seu escrito.
Que venham mais, meu amigo!
DELÍRIO E LASCÍVIA
Na rotina de sempre, das telas ligadas,
dos jornais da noite que invadem as casas,
das bolsas, das guerras, da inflação,
dos homens brincando de donos do chão.
No teatro dos índices, gráficos, ruídos,
dos chefes sorrindo em discursos vazios,
dos decretos com voz de sentença vazia,
da pressa sem causa, da fé sem magia.
A terra era um tédio de vidro e de aço,
um baile acabado, sem vinho, sem passo,
um brinde mecânico, erguido por nada,
uma festa exausta, sem noite encantada.
Os dias giravam em torno do nada:
rotina, processos, a engrenagem cansada.
A vida marchava em compasso mecânico,
num tédio sem rosto, regular e orgânico.
Havia também cansaço no Olimpo,
na glória sem risco, no eterno já extinto.
Até mesmo os deuses, de néctar cativos,
sonhavam um erro, um delírio, um perigo.
Porque o infinito, de tanto durar,
desbota o milagre, desgasta o luar;
e até o divino, se nunca desaba,
apenas se assiste, se esquece, se acaba.
Então promoveram, sem rito, o encontro.
Sem cláusula, aviso, sem cálculo pronto.
Nenhum juramento. Nenhuma premissa.
Só o dedo do acaso rompendo a cortina.
Só a conspiração do improvável, antiga,
essa ironia do destino que instiga,
quando a lógica dorme, quando a regra se ausenta,
quando o caos assina o que o mundo não tenta.
E foste tu.
E fui eu.
Súbito. Sólido. Fundo. Fatal.
Como um raio sem rédea cortando o metal.
Como a água encontrando, afinal, sua sede.
Como a febre encontrando o delírio que pede.
Havia em ti alguma coisa de abismo,
de impulso, de carne, de humano e de risco,
essa chama que atrai para o fundo e consome,
esse corpo tão íntimo, alheio ao meu nome.
Não foi paz. Nem promessa. Nem porto. Nem lei.
Foi vertigem. Foi queda. Foi “sim” sem “talvez”.
Foi a força animal, de um desejo insano,
que reconhece no olhar o sagrado e profano.
Animais nada indagam. Não pedem passado.
Não consultam currículo, nome ou tratado.
Sentem só o perigo, o ímã, o calor,
e seguem a rota selvagem do ardor.
Assim foi.
Sem freio. Sem forma. Sem defesa.
Como um delírio em que a caça entregou-se à presa.
Como se Eros, cruel, dirigindo a história,
afiando outra vez suas flechas, dissesse: agora.
E tudo que era quarto perdeu sua moldura.
Já não havia mobília, parede ou postura.
O instante rompeu sua casca pequena
e fez do real uma fábula obscena
não obscena de gesto, de carne ou detalhe,
mas obscena de excesso, de abalo, de abate,
como se a vida, cansada de ser repartida,
num minuto quisesse gastar toda a vida.
Talvez fosse o sagrado ou a paz em ruptura,
o sereno imaculado, intacta brandura,
mas a chama que fere e que, mais funda, perdura,
febre que não se apaga, ainda ardendo, procura.
É como veneno que se bebe em rútilos cristais
e, sabendo que mata, insiste em beber mais…
Depois, o mundo voltou.
Voltou com seus móveis,
seus códigos, seus pesos, seu caos
como se os deuses, após o espetáculo, trocassem de canal,
E na forma de um banho, um nome e o último enlace,
o mundo voltou com a realidade impondo sobre nós a sua face.
E veio a pergunta, que brotou da agonia:
como viemos parar aqui, que força nos queria?
O universo nos presentou ou foi apenas ironia?
Desígnio secreto ou o deus do acaso?
Presente ou castigo? Questiono…
Triunfo ou fracasso?
De um lado, a mulher que da noite colhia
o pão, o perfume, a febre e a fantasia.
Do outro, um homem trazido de um pacto antigo,
como quem vem de outro nome e se perde consigo.
Então disseste, sem frase, sem voz:
quero saber mais de ti, quero desatar os teus nós,
quero o mapa impossível da tua existência,
quero o centro do caos, quero a tua ausência.
Mas conhecer-te era uma causa perdida:
como buscar no nevoeiro uma forma definida;
como medir o noturno com lâmpada acesa;
como guardar numa mão o pó de uma estrela.
Foi então que compreendi Ícaro e sua mente,
não como tolo, tampouco imprudente,
mas como um fiel do fulgor e do brilho que venera,
devoto da beleza do instante, mesmo sabendo o fim que o espera.
Porque há belezas que exigem risco para existir,
e só se revelam aqueles que consentem em cair.
Mas o impossível, quando vem, é breve.
Não cresce como árvore. Não dorme. É leve.
Rasga como cometa a pele do presente,
fere quem o toca, e passa de repente.
Entre riscos e desejos,
promessas de paraísos,
depois sonhos, depois risos,
depois beijos!
Depois…
E depois, amada?
Depois dores sem remédio,
depois pranto, depois tédio,
depois… nada!
Talvez essa seja a tragédia.
Talvez resida aí a beleza:
Ter sido real
sem pedir permanência.
Real como o fogo.
Breve como o brilho.
Triste como a noite
sobre os restos do delírio.
Belo como um deus ferido,
mudo como um céu partido,
irremediável como tudo
que, sendo sublime, não foi prometido.
– Que me resta fazer?
– Faze o que fazem os vencidos: esquece.
Esquece, se puderes.
Esquece, se quiseres.
Esquece, se a alma consente e não padece.
Esquece, se o fogo acolhe, em cinza, o que o aquece.
Dizem que o amor verdadeiro é assim:
Fugaz
já nascido para o fim.
Poderão chamar de utopia, de delírio ou de história.
Esquece-me, se puderes, mas guarda, para sempre, meu amor em tua memória.