DELÍRIO E LASCÍVIA
2 de maio, 2026
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SONETOS X – CECÍLIA MEIRELES

“Quando terminam os favores, começa a  ingratidão” – provérbio português

 

Nesta postagem, trago um soneto que explora uma dor específica, causada por um comportamento muito comum nas relações humanas e que parece fazer parte do caráter de milhões de pessoas.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) nasceu no Rio de Janeiro e tornou-se cidadã do mundo – basta que se leiam suas Crônicas de Viagem. Transformou sua história de vida em razão para uma escrita profunda, às vezes dolorida, pungente e de uma sensibilidade própria dos grandes escritores. A poetisa foi marcada pela perda.

Sua mãe fica viúva enquanto está grávida de Cecília. Antes dos três anos, a mãe também morre. Sem irmãos, é criada pela avó – a escritora costumava dizer que a solidão havia lhe proporcionado a possibilidade de sonhar, criar e escrever. Mais tarde, seu primeiro marido se suicida, deixando-a com três filhas pequenas.

Cecília foi, além de poetisa, cronista, pintora e professora.

No soneto abaixo, o eu-lírico põe-se na posição de quem faz uma prece, descrevendo a dor que sente pelo esforço empregado durante sua vida: sem fazer distinção entre este ou aquele, praticou o bem que pôde e que julgava correto. Foi recompensado, porém, com este mal que tanto aflige as relações humanas – a Ingratidão.

Confessa ter uma alma infeliz, já que o bem praticado “sem revoltas nem cansaços” não lhe foi retribuído. No silêncio da noite, recolhe-se à própria dor, constatando “o amargor da solitude”.

Quantas vezes nossos favores são assim pagos! Quantas vezes nossas melhores ações de acolhimento, ternura e carinho são pouco (ou nada) valorizadas por aqueles que ajudamos – e até mesmo recompensadas com indiferença ou arrogância!

Ingratidão é sempre sinônimo de decepção. Uma traz a outra a reboque, puxando pela mão e fazendo-lhe companhia. Causa e efeito, essa dupla pode nos causar também tristeza, melancolia e até baixa autoestima. Como pudemos ser tão tolos ao ajudarmos incondicionalmente determinada pessoa?

Nem sempre somos conscientes do mal que fazemos a alguém, mas o ingrato age, parece-me, de caso pensado. Ele pede o favor, às vezes humilha-se para obtê-lo, mas sabe que virará as costas a quem lhe fizer o bem.

O soneto nos convida à reflexão. É sempre bom tomar cuidado com o escorpião pronto a picar nossas costas – ainda que o estejamos ajudando nas horas difíceis, como a rã da fábula.

 

 

ORAÇÃO DA NOITE

 

Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,

No infecundo amargor da solitude:

as dores, – embalei-as nos meus braços,

como alguém que embalasse a juventude…

 

Acendi luzes, desdobrando espaços,

aos olhos sem bondade ou sem virtude:

consolei mágoas, tédios e fracassos

e fiz, a todos, todo o bem que pude!

 

Que o sonho deite bênçãos de ramagens

e névoas soltas de distância e ausência

na minha alma, que nunca foi feliz.

 

escondendo-me as tácitas voragens

de males que me deram, sem consciência.

pelos míseros bens que sempre fiz!…

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

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