SONETOS X – CECÍLIA MEIRELES
3 de maio, 2026
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SONETOS XI – MANUEL BANDEIRA

No soneto desta postagem, versos de um eu-lírico que parece avaliar a própria existência e a existência de alguém a quem ele se refere. A melancolia e a resignação finais convidam o leitor à reflexão.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

O pernambucano Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968) foi poeta, cronista, tradutor e crítico de arte e de literatura. Considerado um dos maiores nomes do Modernismo no Brasil, seus poemas são mais conhecidos pelo emprego do verso livre (sem métricas fixas) e do verso branco (sem rimas), embora tenha produzido alguma poesia mais tradicionalista também.

No soneto abaixo, Bandeira dá voz a um eu-lírico melancólico e um tanto romântico que se dirige a uma figura misteriosa, detentora da “chave dos destinos” (talvez sua amada), constatando que ambas as vidas – dele e dela – foram pautadas pela tristeza e pela desilusão. Ele parece desabafar com ela: declara que seus “sonhos cristalinos” transformaram-se em “cinzas”, espalhados, com lágrimas, ao vento.

Os dois “personagens” do poema sofreram e viram suas fantasias desmanchadas pelo mundo real, nem sempre (quase nunca) piedoso e gentil com quem sonha e busca a felicidade – de acordo com o poema, as fontes da esperança secaram e não resta muita coisa.  

No fim, a antítese entre o “tudo”, que a mulher ofereceu à vida, e o “nada”, que essa lhe deu em troca. As metáforas possíveis são muitas, porque muitos são os caminhos da decepção e do esfacelamento dos sonhos. O poeta mostra aqui um certo pessimismo, que aparecerá em outros de seus escritos – como em “Andorinha”, por exemplo: “Andorinha lá fora está dizendo: – Passei o dia à toa, à toa! / Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste! Passei a vida à toa, à toa…”.

Bandeira mostrava uma visão bastante melancólica da vida e conseguia, com muito lirismo, alcançar o leitor exatamente por falar dos aspectos mais comuns da existência humana. 

         

SONETO ITALIANO

Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:

De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

Também te vi chorar…  Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança… E não cedeste!

Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo, – à vida, que nunca te deu nada!

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, Soneto melancólico! Na frase “De quem me valerei, se não me valho”- é um verso poderoso que nos traz uma sensação de abandono absoluto, parece que tudo ruiu com o encanto.
    Obrigado por compartilhar.

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