
Mais um capítulo (muito) triste na Educação brasileira: o caso da professora de São José dos Campos cujos alunos puseram fragmentos de vidro no copo de água que ela estava prestes a beber.
Fugindo bastante de uma simples brincadeira, a atitude mostra vários aspectos da atual relação aluno-professor que se pode verificar em qualquer escola do País – seja ela de ensino público ou particular. E o que se constata é que novamente a impunidade (sempre ela!) está por trás de um ato como esse, visto no interior de São Paulo.
Não nos enganemos: a relação entre professores e alunos sempre foi permeada pelos mais diferentes sentimentos. Isso não é novidade. Amor, raiva, admiração, carinho, rejeição, medo, ódio (é duro, mas temos de admitir que ele também está presente) fazem parte das aulas, dependendo do comportamento da classe e da conduta do professor. Tenho tempo suficiente na profissão para saber que despertei os mais variados sentimentos nos alunos – e vice-versa. Que estudante não cometeu o erro, por exemplo, de transferir ao professor a raiva que sentia por sua matéria? São muitos, em contrapartida, que transferem ao professor o amor que sentem pela matéria que ele ensina.
Entrei em muitas classes nas quais eu tinha um enorme prazer em dar aula; foram numerosas as outras em que, só de pensar em encontrar aqueles alunos, eu já sentia repulsa. É desagradável, mas precisa ser dito.
Agora, a história do vidro no copo extrapola qualquer “brincadeira”, vai além de qualquer “peça” que se queira pregar no professor ou professora. Vai além da aversão que se pode sentir pelo docente. É um símbolo claro da falência dessa relação… provavelmente uma falência que já nasceu em casa, onde muitos jovens aprendem que professor é um serviçal, está ali para servir, para obedecer à escola, aos pimpolhos e, principalmente, aos pais que pagam seus salários – mensalidades no caso das escolas particulares e impostos no caso das escolas públicas.
Não à toa, a profissão de professor, no Brasil, vem sendo uma das mais rejeitadas nos últimos 60 anos, apesar de ser considerada a “profissão das profissões”. Salários, ambiente de trabalho, (des)valorização, (des)respeito, vandalismo por parte dos alunos, prepotência dos pais (a qual os filhotes logo incorporam), perda de autoridade em sala de aula… tudo isso vai contribuindo para a falência de um País.
Talvez, se prestássemos atenção à etimologia do verbo “ensinar”, pudéssemos olhar o professor sob outra perspectiva: “ensinar” significa “pôr um sinal em”, isto é, quando alguém me ensina alguma coisa, está pondo um sinal seu em mim – que eu poderei levar comigo para sempre, até o fim dos meus dias. E quantos professores marcantes estão por aí tentando melhorar seus alunos! E quantos docentes encaram sua profissão com amor e dedicação que nem sempre são reconhecidos!
É lógico que um episódio como o de São José dos Campos não se esgota em si e não fica restrito à sala de aula. Suas consequências são terríveis… como ficam, por exemplo, o psicológico e a confiança da professora depois do acontecido? Para onde vai a vontade de sair da cama de manhã e encarar aqueles jovens?
A escola – em todos os níveis – é sempre um reflexo de seu tempo. Quando, absurdamente, tínhamos o professor que podia impor castigos físicos aos alunos, isso era o espelho de um autoritarismo que não tem mais lugar. Hoje, porém, a permissividade e a impunidade dos alunos retratam uma sociedade em que o respeito aos mais velhos está indo ralo abaixo. Saímos do abuso de autoridade do professor para o “tudo pode” dos alunos. Por essas e outras, infelizmente, o coro dos que desejam a volta da ditadura vai aumentando no País.
Eu costumava dizer, quando estava em sala de aula, que a palavra “herói” era (é) muito desperdiçada entre nós. Qualquer um é herói hoje – o termo é frequentemente associado a algum feito esportivo. E eu dizia aos meus alunos que herói é outra coisa: é o cidadão (ou cidadã) que sustenta sua família com um salário-mínimo, trabalhando honestamente num País de tanta corrupção; é o profissional da Saúde que, mesmo num hospital de condições precárias, consegue salvar vidas; é o meu colega que dá 700 aulas por semana – e ainda corrige três mil provas em casa (atividade não remunerada) – em escolas caindo aos pedaços para alunos que não estão nem aí para ele e às vezes o ameaçando de morte.
O respeitado médico e missionário Sir Wilfred Grenfell costumava dizer que “o verdadeiro heroísmo consiste em persistir por mais um momento quando tudo parece perdido”. No caso de muitos professores deste Brasil, os vilões estão vencendo os heróis.
3 Comments
Olá Prof Vitor
Maravilhosa, pertinente e atualissima crônica.
Irretocavel. Disse tudo.
Parabéns pela crônica
Professor, em lágrimas estou! Lembrei-me de muita, muita coisa – uma delas era o nosso respeito aos professores, isso mesmo, respeito. Não deixemos que os vilões vençam nossos heróis”.
Estamos vivendo em um momento inacreditável, o desrespeito passou a ser uma constante. É muito triste.