MEU PAI II – UMA CANÇÃO
28 de junho, 2026
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BLINDAGEM

Nos domingos nublados, faço minha caminhada diária pelo Elevado Presidente João Goulart (popular “Minhocão”). Quando está muito sol, não dá, porque ele pega a gente em cheio durante todo o percurso, e não gosto disso. Dia ensolarado, tomo outro caminho.

Bem, quando vou pelo Minhocão, sigo em frente até o Parque da Água Branca, dou três voltas lá dentro e retorno pra casa, de novo pelo Elevado. Na volta, sempre vejo, na fachada de um prédio, um desenho meio cubista, feioso, mas com um enunciado que sempre me chama a atenção: “Hoje, não vão me ferir”. E sempre venho embora, pensando nessa mensagem.

Nas minhas conjecturas, já bastante cansado, ansioso por chegar à minha casa, tomar um banho, almoçar e descansar na tarde de domingo, fico pensando em como seria bom se tivéssemos esse poder de não deixarmos que nada (nem ninguém) pudesse nos ferir, nos magoar, nos deixar tristes ou nos provocar angústia. Seria maravilhoso que o ser humano não tivesse o poder da crítica mordaz, ou do comentário que humilha. Seria maravilhoso que as pessoas não conseguissem transmitir às outras sua arrogância, seu desdém, seu menosprezo. Seria maravilhoso, enfim, se todos fôssemos blindados contra a maledicência alheia, se cada um de nós pudesse desenvolver uma armadura em volta do coração, não para deixar de amar, mas para não sentir a ponta do espinho que o outro, intencionalmente, utiliza como arma de sua inveja e de sua maldade.

(Nesse mundo utópico, as redes sociais, por exemplo, perderiam muito do seu poder de ofensas, xingamentos e brigas.)

Claro que também falo das vezes em que nós mesmos também magoamos e ferimos e humilhamos as pessoas com nossas palavras e comportamentos. É lógico que não me excluo, porque sei que também já magoei e feri meus desafetos (e até quem não merecia) – e não fui capaz de remediar o mal que fiz. Não me ponho na condição de vítima que apenas sofreu e nunca provocou o sofrimento de alguém. Claro que não! E, do meu ponto de vista, também seria fantástico se minhas palavras ruins e amargas não surtissem efeito algum sobre as pessoas que, um dia, eu feri – mesmo que, na hora, eu estivesse com a razão.

Seria bom que nossos corações fossem receptivos somente à generosidade, à gentileza e à amizade. Seria muito bom se pudéssemos declarar, ou, melhor ainda, se pudéssemos decretar: “Hoje, não vão me ferir”. Acordaríamos de manhã com a certeza de que não nos aborreceríamos, não teríamos motivos para chorar de tristeza ou decepção, nem razões para o ódio diante da grosseria alheia. Em contrapartida, também não provocaríamos isso em ninguém e poderíamos dormir tranquilos, quando a noite chegasse, com nossa consciência em paz.

Mas estou sonhando e sendo preguiçoso com esta crônica: estou procurando o modo mais fácil de se conviver com os homens. Na realidade, nossa tarefa é muito mais difícil: temos que controlar nossas línguas e nossa atitudes, pensando nas consequências de nossas palavras amargas e ríspidas para o coração dos outros: o eterno exercício do respeito e da empatia.

“Ponha o cérebro em funcionamento antes de pôr a língua em movimento”, diz o ditado. Tentar sentir o que a outra pessoa sentirá com o que vamos dizer.

Por tudo isso, sempre digo que o “11º Mandamento” é o mais difícil de todos: Jesus nos disse para amarmos o próximo como a nós mesmos. Poucos de nós conseguem. Quase ninguém.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

3 Comments

  1. Clarice Keri disse:

    Como sempre você têm razão, não somos imunes nem perfeitos, só humanos, podemos tentar ser fortes, amei, obrigada.

  2. Verônica disse:

    Ponha o cérebro em funcionamento antes de pôr a língua em movimento”, diz o ditado. Tentar sentir o que a outra pessoa sentirá com o que vamos dizer.
    Exige muito treinamento e auto observação.
    Excelente reflexão

  3. Professor, perfeita esta Crônica! Nas minhas caminhadas dominicais, observo muito as pessoas e venho para casa pensativo – a cada dia é um aprendizado. Usando o bordão daquele desenho do Batfino: “minhas asas são como uma couraça de aço, nada poderá me atingir”

    Adorei.

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