UMA PROFESSORA E UM COPO D´ÁGUA
26 de julho, 2026
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O BONÉ

Naquele domingo, o céu tingia a manhã de um azul intenso. O sol também ia forte lá em cima, enquanto o relógio indicava que já haviam se passado 30 minutos depois das 11.

Alheios à multidão que também saíra para aproveitar a manhã ensolarada na avenida, os dois caminhavam tranquilamente, lado a lado, ora apenas sorrindo, ora olhando um nos olhos do outro. Passos lentos, ele com as mãos nos bolsos da bermuda branca, camisa de linho azul, mangas longas arregaçadas até os cotovelos – ela, de vestido vermelho –, os dois de tênis confortáveis e palavras de carinho prontas para serem ditas. Ele usava um boné da mesma cor da camisa, enquanto ela usava seus óculos escuros.

E iam assim, aproveitando a manhã no encontro combinado ainda deitados, antes do banho, antes do sexo, antes do café na bandeja que um deles traria para a cama – e antes do bolo gentilmente feito por um deles como um presente ao outro. Sairiam, caminhariam pela avenida fechada para os carros no domingo que nascia e, no trajeto, decidiriam onde almoçar, sem a pressa que leva sempre para os mesmos lugares no dia a dia da cidade grande.

Não tinham escolhido que tipo de restaurante – italiano, talvez; árabe, podia ser; japonês, nem pensar, que um deles não gostava; tailandês era uma boa opção. E a escolha de um lugar para o almoço seria motivo também de uma alegria que brotava dentro deles. Sempre se poderia encontrar um restaurante onde haveria um garçom simpático e cúmplice, que sorriria para os dois e os atenderia com gentileza e atenção. Sempre se poderia encontrar um lugar onde o tempo pudesse parar um pouco, e a tarde de domingo, que logo começaria, pudesse se estender antes do pôr do sol que tingiria tudo de um laranja intenso, anunciando com pressa a segunda-feira…

Foram caminhando por entre as pessoas – alguns com filhos, outros apenas com seus animais de estimação, todos seguindo seu curso naquele fim de manhã. Uma brisa veio refrescar um pouco a avenida movimentada, transformada em passeio público. E aquele vento foi recebido com alegria por eles. Viram um casal simpático. Deviam estar juntos havia mais de 40 anos – e aquilo deixou o dia mais esperançoso. Se havia casais tão longevos, nem tudo estava perdido. 

Na cabeça de um, o pensamento da suprema felicidade por aquele momento, só por aquele momento, que não precisava durar eternamente – bastava-lhe o minuto presente, e a consciência de que muitos passam por esta vida e não conhecem o verdadeiro Amor. E ele conhecia. Ela, mais realista e talvez um pouco menos romântica, levava a preocupação de encontrar um lugar não muito cheio para o almoço. Ele sonhava; ela procurava.

O vento bateu em seus rostos e fez esvoaçarem um pouco os tecidos leves que vestiam. Naquela manhã, quase tarde, não havia espaço para o ódio, a inveja, o ressentimento – e a isso se podia chamar de plenitude. Uma sensação de liberdade passou por eles, fazendo com que olhassem um para o outro, numa sincronia difícil de ser explicada. Sorriram e não precisaram dizer nada. Seguiam assim, livres da culpa por erros que todos cometemos na vida e que não merecem mais do que um arrependimento.  

Foi ele, porém, quem teve uma ideia de restaurante e sugeriu a ela, que gostou e sorriu. Não ficava longe. Continuaram sua caminhada lenta, sincronizada como tudo naquele momento. Ela disse que estava com fome e queixou-se de que aquele sol tinha ficado muito intenso.

Sem pensar duas vezes, ele tirou o boné e o pôs na cabeça da moça. Era um “eu te amo” silencioso e sincero. E ela entendeu.

       

(Caro leitor, imagine as personagens que desejar na pequena história acima – um homem e uma mulher ou dois homens ou ainda duas mulheres… só não deixe de imaginá-los como pessoas felizes. A felicidade está nesse momento fugaz, que dura um quase-nada, mas que vale uma vida inteira.)                

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

2 Comments

  1. Professor, o “eu te amo” silencioso às vezes vale mais do que outro – basta interpretarmos. Linda Crônica.

  2. Angelo Antonio Pavone disse:

    Olá Prof Vitor
    Belíssima, leve e intensa crônica. Genial.
    Parabéns

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