
Era uma vez um sultão que aprisionou um leão e resolveu guardá-lo para seu prazer. Nomeou um funcionário para cuidar do animal, para cujo sustento se comprometia, por ordem do soberano, a entregar seis quilos de carne diariamente. O guardião, então, pensou que não prejudicaria ninguém se alimentasse o felino com quatro quilos, guardando para si os dois quilos restantes. Assim o fez, até que, aos poucos, a força e o garbo do leão foram diminuindo, chamando a atenção do sultão. “Algo estranho está acontecendo. Nomearei um funcionário superior para ter a certeza de que o primeiro cumpre fielmente o seu dever”.
Assim que a determinação foi cumprida, o guardião convenceu seu superior de que os dois quilos de carne estariam mais bem empregados se ele ficasse com esses dois quilos, em lugar de alimentar o leão. Combinaram de guardar segredo e, por fim, começaram a repartir entre si os dois quilos de carne confiscados. A vantagem do roubo, contudo, não tardou a estimular o apetite do novo funcionário: conversou com seu subordinado e rapidamente chegaram à conclusão de que se podia reduzir a ração do leão a três quilos diários.
Faminto e consumindo-se, o pobre animal enfraquecia na prisão, alarmando o sultão mais do que antes. “Nomearei um terceiro funcionário”, disse, “para que vigie os outros dois”. E assim fez.
Mas aqueles só esperavam a primeira visita do superior recém-nomeado para explicar-lhe as vantagens de confiscarem três quilos da carne, quando, sem nenhum esforço, poderiam ficar com os três quilos – um quilo para cada um. Não demorou muito para que a cobiça do novo funcionário do rei fosse despertada: “Não há razão alguma para não tirarmos quatro quilos da ração diária do leão. Esse bicho pode perfeitamente viver com dois quilos por dia, e, caso contrário, como não tem o dom da palavra, não poderá queixar-se ao sultão, que acreditará no que dissermos. Por que deveríamos renunciar ao lucro que se nos apresenta tão facilmente?”.
Dessa maneira, o leão continuou padecendo, quase morto de fome, despojado e saqueado pelos guardiães nomeados para cuidarem de sua saúde – guardiães que, quanto mais se juntavam, mais padecimentos causavam ao animal, porque maior era o roubo cometido.
Eis um exemplo do que é comum verificar-se na coisa pública em vários países do mundo.
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Caro leitor,
O texto acima não é meu. É uma lenda dos “Felatas” (grupo étnico que compreende várias populações espalhadas principalmente pela África Ocidental e Central). Eu o li há muitos anos e achei oportuno dividir com os amigos. Infelizmente, ele é uma alegoria dos escândalos diários que têm explodido na mídia.
O leão da parábola é o Brasil – também cativo e entregue aos corruptos. Seus “cuidadores” são nossos ilustres políticos que, insatisfeitos com seus altíssimos salários, ainda aceitam propinas, maracutais e conchavos em busca de mais “carne”, isto é, mais dinheiro e privilégios.
Honestos homens engravatados, dignos senhores representantes do povo, cuja ambição e desonestidade não têm limites. Profissionais que confundem a vida pública com a privada – nos dois sentidos.
1 Comments
Professor, perfeita a lenda! Ela nos mostra o poder, medo e sobrevivência. Vemos autoridades que se vestem, falam em nome do povo e carregam consigo discursos de moralidade, compromisso e responsabilidade. Mas, quando as portas se fecham, nem sempre é tão simples distinguir onde termina o interesse público e começa o interesse particular. E seguimos, entre gravatas de marcas e bem ajustadas, discursos bem ensaiados e promessas de um futuro melhor para o nosso país. Afinal, na política, há quem saiba muito bem representar o povo — especialmente quando é conveniente.