UM PROVÉRBIO CHINÊS E A LUA
20 de outubro, 2026
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DATAS

Desde que “inventaram” o tempo e o calendário, somos governados por dias, meses e anos. As datas vão marcando nossas vidas ao longo de nossa existência, e mal percebemos como elas determinam nossas ações e comportamentos.

Pobre do rapaz que, por exemplo, esquece de pelo menos comprar uma caixa de bombons e algumas flores para a sua namorada no dia 12 de junho. Mas, pobre mesmo do marido que se esquece do aniversário da esposa – esse vai dormir no sofá!

O negócio de aniversário também é curioso – tenho amigos que, como eu, absolutamente não ligam para a data e não se importam se ela não for lembrada. Recebo com carinho os cumprimentos, mas nunca faço festas no meu dia; porém tenho amigos que adoram comemorar, reunir as pessoas, comer bolo… e até o tal do “Parabéns a você”, de que eu nunca, jamais gostei pra mim!

Acho que a data mais remota de que me lembro é o dia 20 de julho de 1969: o homem pisava na Lua pela primeira vez, mas o dia ficou na minha memória porque era o aniversário de 27 anos da minha mãe. Eu tinha cinco anos, não me lembro de detalhes, obviamente, mas lembro bem da minha mãe, na frente da nossa TV em preto e branco, dizendo: “Gosto tanto da Lua que tinha que ser no meu aniversário!”. E aquilo me marcou bastante.

Lembro agora que a mãe da gente ganhava as “folhinhas” na padaria, no supermercado, na quitanda, no depósito de materiais de construção (e até na farmácia) quando ia chegando o mês de dezembro. E lembro também de que elas faziam algumas anotações mês a mês: o aniversário de alguém, o dia em que o caminhão do gás ia passar, a consulta no dentista, a reunião de pais e mestres na escola, ou o pagamento do aluguel, entre outras datas importantes. Cresci com essas folhinhas penduradas nas cozinhas, nas casas modestas, mas bem-organizadas por mães, avós e tias.

Quando penso na minha trajetória, lembro de datas alegres que, depois, se tornaram melancólicas e nostálgicas, como os aniversários dos meus pais ou dos meus avós. O Natal, talvez, que perde sempre um pouco do seu brilho quando a gente cresce e não tem mais aquela inocência da infância. O Dia das Mães, o Dia dos Pais (agora que eles não estão mais aqui), o aniversário de algum amigo querido que também já tenha partido…

Há, todavia, datas tristes que se tornaram alegres com o passar do tempo. Lembro os dias em que saí dos dois melhores empregos que tive – no jornal e no cursinho. Eles foram duas grandes escolas para mim, e ser demitido, nas duas ocasiões, foi um baque bastante forte. Não se tratava apenas do orgulho ferido, mas também da incerteza do que poderia vir depois, de como eu iria me virar com as responsabilidades todas que eu sempre tive. (Lembro que o medo mesmo era ser demito pela tal “justa causa” e, com ela, não ter direito a nada na rescisão.)

O tempo passou, e o que foi tristeza, insegurança, angústia e (uma dose de) humilhação transformou-se em alívio e em plena certeza de que já não havia por que continuar a trabalhar naqueles lugares. Os ciclos haviam se fechado, minha missão havia terminado. Hoje, isso é muito claro pra mim. Assim, aquelas datas (então tristes) se transformaram em datas de libertação, de alegria e do início de uma nova vida. Olho pra trás e compreendo tudo com muita nitidez. É preciso que aceitemos o término das coisas e o fim daquilo que não nos acrescenta mais nada.

Existem, contudo, aquelas datas tristes que permanecem tristes. O dia de morte de uma pessoa querida (dizem que o tempo cura… nem sempre!), o dia de uma grande decepção com alguém, quando, por exemplo, descobrimos que fomos traídos (por parceiros afetivos ou por amigos) e fomos os últimos a descobrir. Aí, acho que não tem muito jeito. O negócio é perdoar, mas é tão difícil!

Nessa última categoria (dias tristes que permanecem tristes), incluo o acidente do meu irmão, que mudou a vida de todos nós lá em casa – principalmente a dele, claro! Como esquecer aquele 14 de março de 1994? Não dá. Fatos como esse são, efetivamente, divisores de água na vida de uma família. Houve um antes e, agora, há um depois.

São muitas as datas que dividem vidas em um antes e um depois – calculo que o nascimento de um filho, por exemplo, seja um desses momentos.  

O leitor, ao longo desse texto, deve ter se lembrado de algumas datas que o marcaram… e, de coração, torço para que tenham sido, em sua maioria, datas alegres e felizes. Datas que tenham lhe trazido sabedoria, amor e esperança.

       

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, datas não são apenas números no calendário; são marcas da nossa existência, carregadas de lembranças, sentimentos e significados que nem sempre permanecem os mesmos ao longo do tempo. Belíssima Crônica para reflexão.

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