
(…) Ah, que dor! Magoado e só,
— Só! — meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria…
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
— Esta pouca cinza fria…
(Manuel Bandeira – 1917)
Não sei bem quando foi que nos perdemos um do outro, e fica sempre mais fácil e confortável dizer que foi o tempo que nos corroeu e corroeu nosso convívio. É mais fácil dizer que foi a rotina, que foi o costume de acordar sempre ao seu lado, e você ao meu.
Mas isso seria simplificar demais. E nada é tão simples.
Aos poucos, fui perdendo o prazer de sua companhia – e você foi ficando mais feliz com minha ausência. Eu sei. Não, ninguém me disse nada. Nenhum amigo mais íntimo veio me contar de sua alegria – ou de seu sorriso – quando eu me ausento. E duvido que alguém tenha lhe falado sobre a saudade que eu já não sinto de você. E eu não sinto.
Os amigos nos parabenizam no nosso aniversário de casamento. Dizem que ficam felizes por estarmos juntos por todos esses anos. E, quando eles se vão, o resto de bolo sobre a mesa da sala é um retrato do que sobrou de tudo o que um dia vivemos. Farelos.
Ontem à noite, vi você com uma roupa que eu não conhecia. Não tive vontade de perguntar se você a tinha comprado ou se era presente de alguém. Simplesmente, não tive vontade. Também sei que você não teve vontade de me perguntar que livro eu estava lendo, hoje, de manhã, quando você entrou na cozinha. Pequenas coisas que dividíamos, pequenas conversas que alimentavam um certo elo entre nós. Nem isso mais…
Nas raras vezes em que vemos TV juntos, há algum comentário sobre alguma notícia, ou sobre algum comercial… quanto tempo faz que não vamos ao cinema e ao teatro na companhia um do outro? Quanto tempo faz que só saímos com os amigos – eu com os meus, você com os seus – com a desculpa de que nossos horários não batem? Sempre a correria do trabalho, sempre a ausência. E a distância.
Por algum tempo, ainda tivemos o pretexto do cachorro que sua irmã nos deu. Por algum tempo, ele foi motivo de conversa, de passeios à noite, de idas ao veterinário, de risadas nesta casa. Por algum tempo. Agora, que ele se foi, fico me perguntando se seria preciso um outro bicho para começarmos a conversar novamente.
Talvez eu não conheça você como eu pensei que conhecesse. Acho que você poderia dizer a mesma coisa sobre mim. Ainda não entramos numa guerrilha na qual aqueles que um dia foram amantes ficam se provocando com ironias e picuinhas, tornando o convívio insustentável. Ainda não chegamos ao ponto de bilhetinhos sobre a mesa para que um tenha a mínima informação sobre o paradeiro do outro.
Ontem, um amigo viu minha nova foto no perfil do WhatsApp. Disse que não me reconheceu… sim, sim, sabia que era eu, claro, mas era uma pessoa estranha para ele. Uma fisionomia que ele nunca tinha visto, “um semblante cansado, triste, cinza”. Disse que parecia que eu carregava um peso enorme no olhar. E disse mais: “Olhos tristes não mentem”. Essa é a sensação que, agora, provoco nas pessoas…
Quando chego em casa e vejo as luzes apagadas, não sinto melancolia, nem tristeza, nem sua falta… entro como quem mora só e fica feliz por isso. Logo, uma culpa me assalta e reconheço que algo está muito errado, que eu deveria sentir saudade, que eu deveria querer você quando eu chegasse do trabalho. Mas não sinto saudade alguma.
Há uns dois ou três dias, quando saí do chuveiro, você estava no quarto, olhando boletos na cama, pagando-os todos com o celular na mão e não levantou a cabeça quando me viu sair do banheiro. Fiquei pesando na última vez em que você entrou em casa e, da sala mesmo, gritou pra mim, com alegria, que tinha chegado…
Somos menos do que dois irmãos sob o mesmo teto. O sexo está fora de cogitação, e não sentimos mais a falta um do corpo do outro. Sentimos?
O que se passa em sua cabeça? O que está por trás do seu silêncio e da sua gentileza e, ao mesmo tempo, da sua distância? Está sentindo o mesmo que eu, ou pra você não faz a mínima diferença que estejamos como estamos?
Com a desculpa de que amanhã levanto cedo, recuso o convite de uma festa de aniversário na sua família. Você também não insiste. Diz que entende, mas que precisa ir – afinal, é a sua família. Provavelmente, quando você voltar, eu estarei dormindo.
Deito no sofá da sala e ouço um pouco de música. Vou pra cama depois de algumas horas.
Antes, porém, de pegar no sono, com a casa em silêncio, só com a luz que vem da rua, fico olhando para o teto do nosso quarto. Entre tantos pensamentos, lembranças, dúvidas e possibilidades, penso que não tenho forças para ir embora…
Fecho os olhos e faço uma oração que eu mesmo censuro dentro de mim. Nela, peço que você tenha a coragem de fazer o que eu não consigo – se você partisse, o peso da separação seria menor do que o peso da convivência.
(Contei essa história a um amigo, que me perguntou:
– Esse casal é hetero ou gay?
Eu, então, lhe fiz uma outra pergunta:
– Nessa caso, faz alguma diferença?)
2 Comments
Olá Prof Vitor
Crônica bela e real. As pessoas são diferentes umas das outras. Um casal pode pensar que se conhecem. O tempo desgasta relações. Se não houver companheirismo, compreensão, querer superar desavenças, a relação não segue adiante. Uma união requer um grande capacidade de fazer concessões!!!!!!
Parabéns pela crônica
Lembrei-me de tanta coisa, professor! Um desgaste silencioso de uma relação em que duas pessoas, independentemente de quem sejam, aos poucos deixaram de se encontrar dentro da própria relação. Linda Crônica