SONETOS XII – LUÍS DE CAMÕES
17 de maio, 2026
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SONETOS XIII – VINÍCIUS DE MORAES

No soneto desta postagem, a dor que fica quando o Amor se vai, e já não há razões para a união de dois que um dia quiseram e desejaram a companhia um do outro.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

O carioca Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes (1913-1980) foi poeta, dramaturgo, jornalista, diplomata e compositor, sendo um dos grandes nomes da MPB. Essa sua última atividade, aliás, divide opiniões: muitos o consideram um autor mais importante para a literatura brasileira do que para a música – outros tantos pensam exatamente o contrário. Tom Jobim, seu parceiro de várias composições antológicas, teria lhe dado o apelido de “Poetinha”.

Nos versos abaixo, Vinícius fala do fim de uma relação amorosa. Embora os motivos não fiquem claros – existem dezenas de razões para uma relação terminar –, o eu-lírico vai descrevendo a separação: primeiro, como um fato que pega os amantes de surpresa (“E das mãos espalmadas fez-se o espanto”); depois, por meio de antíteses que remetem à dicotomia felicidade/tristeza (riso/pranto; calma/vento; momento imóvel/drama; próximo/distante).

A repetição da locução adverbial “de repente” confere à separação um caráter de rapidez e imprevisibilidade, sem que os amantes deem pelo fim de um amor que, um dia, os uniu. Fica-se com a impressão de que, num piscar de olhos, tudo se perdeu, porque tudo era efêmero e fugaz – ainda que se acreditasse num sentimento sólido e inabalável.

Há, contudo, um alerta: no segundo quarteto, o poema fala que “da paixão fez-se o pressentimento”: os amantes “(pré)sentem” (e muitas vezes não querem acreditar) que tudo está mudando, que a relação já não é a mesma e o fim está próximo (o “amigo próximo” fica “distante”). Quando foi que um se perdeu do outro? Quando o que era calor começou a esfriar?

E, frequentemente, com medo de que a vida se transforme numa “aventura errante”, adiamos a despedida, porque dói admitir que tantos planos e sonhos não se realizarão com aquela pessoa que um dia nós amamos.

 

SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, no trecho:
    “Fez-se do amigo próximo o distante
    Fez-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente.”
    Parece-me um diálogo com os tempos modernos, em que relações se desfazem rapidamente e a vida segue em ritmo acelerado, tornando próximos em distantes e nós acabamos não percebendo.

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