SONETOS XV – GUILHERME DE ALMEIDA
9 de junho, 2026
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MEU PAI I – A LIÇÃO DE GEOGRAFIA

Era o ano de 1974. Morávamos em Taboão da Serra, grande São Paulo, e eu cursava a antiga 4ª série do primário na Escola Estadual de Primeiro Grau António Inácio Maciel. Era o tempo em que as professoras faziam a temida “chamada oral”: a gente ficava de pé, e a professora ia fazendo perguntas sobre a matéria. A classe inteira em silêncio, a gente suando, tentando lembrar do que havia estudado para não fazer feio.

Naquela tarde, Dona Norma – uma professora que guardo com muito carinho na lembrança, porque ela destoava das outras professoras que eram bravas e davam reguadas nas nossas cabeças – resolveu que seria minha vez de responder sobre “as capitais dos estados do Brasil”. Levantei da minha carteira com um medo danado e ela começou a perguntar. “Qual a capital de Goiás?”. Eu não me lembrava. “Qual a capital do Pará?”. E eu fazendo força para me lembrar e não conseguindo. “Qual a capital da Bahia?”. E eu suando, sem responder nada. Lá pela quinta pergunta, ela interrompeu a chamada. A classe começando a rir, meu suor escorrendo pelo rosto. Dona Norma foi gentil, acho que porque eu era um bom aluno, pelo menos comportado:

– Você vai estudar em casa e, amanhã, eu vou tomar a lição de novo.

Voltei para minha carteira, aliviado, mas envergonhado e preocupado também: eu tinha 24 horas para decorar todas as capitais dos estados brasileiros.

Cheguei em casa abatido, e minha mãe logo percebeu que havia alguma coisa errada. Eu disse pra ela que eu tinha de decorar as capitais todas, que a professora ia perguntar etc. Nesse momento, meu pai chegou do trabalho.

Ele era um homem tranquilo, calado, bastante fechado em si mesmo, contrastando com a personalidade mais expansiva da minha mãe. Ele era um tanto distante de mim – ou, melhor dizendo, éramos um tanto distantes um do outro. Minhas lembranças eram de que ele trabalhava muito, saía cedo e voltava tarde. Eu sabia que ele perdera o pai (meu avô) com apenas sete anos de idade, tendo sido criado pelos tios. Falava de como havia saído do Piauí em busca de uma vida melhor no Sudeste e como abandonara a escola no segundo ano primário. Uma vida sofrida, difícil, como a quase totalidade dos imigrantes nordestinos. E, ainda que mal tivesse frequentado a escola, meu pai tinha uma letra linda como poucas vezes vi na vida.

Eu o “conhecia” mais por seus gostos do que por nossa proximidade: eu via que ele gostava de caipirinha, adorava quiabo e jiló, além de qualquer bife com bastante gordura e muito tempero. Não era fã de futebol, mas falava com admiração e saudosismo do Botafogo de Garrincha e do Santos de Pelé. Não tinha luxo, e sua única “vaidade” era estar sempre “apresentável”, como ele mesmo dizia.

Naquela noite, porém, um pouco da barreira que nos separava caiu. Meu pai, depois de jantar (e para a minha surpresa), me chamou no canto e começou a me ensinar alguns truques de como me lembrar das capitais dos estados. Ele sabia todas!

– Presta atenção. Qual a capital de Sergipe? – E, diante da minha ignorância, ele me perguntou: – Qual a cor do cabelo da sua mãe?

Minha mãe havia tingido o cabelo de “acaju”: – Aracaju, respondi, rápido.

– E agora, qual a capital do Rio Grande do Norte? Não lembra? O que a gente comemora no dia 25 de dezembro?

– Natal! Respondi, mais animado.

– Isso! Vamos em frente: qual a capital do Espírito Santo? É só lembrar do nome da única irmã que o pai tem.

Meu pai tinha seis irmãos e uma irmã: – Vitória! – respondi, contente.

– Estamos indo bem…  e, agora, me diga a capital da Bahia… você está fazendo o catecismo para a primeira comunhão, não está? Como Jesus é considerado pela humanidade?

– O filho de Deus! – respondi. E, diante do silêncio do meu pai, prossegui: – O Salvador da humanidade… Salvador!

– Agora, vamos lembrar da capital do Maranhão… não sabe? Casei com sua mãe numa igreja perto da casa da sua avó, lá em São Paulo… você lembra do nome da igreja? Não? São Luís.

Eu ia tentando guardar essas informações todas. Minha mãe ia ouvindo, escondendo um sorriso diante do método didático que nem ela sabia que o marido possuía.

– Agora, outra que vai ficar bem fácil: a capital do Pará. Lembre das aulas do catecismo de novo. A capital do Pará tem o mesmo nome de uma cidade da Bíblia, é uma cidade importante e lembra o som de um sino…

– Ah, é Belém!

E, assim, prosseguimos com a aula que meu pai ia me dando. Havia um misto de surpresa em tudo aquilo para aquele menino de dez anos. Meu pai conversando comigo e me ensinando geografia – um homem quieto, calado, um pouco triste, que sempre nos dizia que não tinha tido estudo e que sabia pouco – mas com uma ótima didática da qual, só mais tarde, tive consciência na vida; o carinho e paciência com que foi me ensinando os truques de associação e que nunca mais saíram da minha cabeça.

O dia seguinte era o grande dia! Cheguei à escola apreensivo, como sempre. Na hora da chamada oral, fui o primeiro lembrado pela professora. Minha tensão e nervosismo não eram menores do que do dia anterior. Dessa vez, porém, acertei as oito ou dez perguntas que ela fez. Ao fim, ela me deu uma piscada e fiquei satisfeito por não a ter decepcionado.

Isso foi há tanto tempo! O estado do Tocantins não existia; o do Mato Grosso do Sul também não. Amapá, Roraima e Rondônia nem estados eram – eram “territórios”. Tínhamos a Guanabara, que durou até 1975. Quem se lembra dessas coisas? 

Hoje, passados tantos anos, lembro desse fato com emoção. Para mim, as capitais dos estados do Brasil estarão sempre associadas ao meu pai e à Dona Norma. Sou grato a ela, por não ter me dado um “zero” logo de cara e pela bondade de me conceder uma chance de estudar mais; e ao meu pai, pela paciência com que me ensinou e pela tranquilidade e segurança que acabou passando àquele menino de dez anos.

Uma simples lição de geografia do Brasil me permitiu conhecer o seu Nilo um pouco. Não muito.

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

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