
Era o ano de 1971. Clima tenso, pesado, ditadura militar em seus “Anos de Chumbo”. O Brasil tricampeão do mundo no México era o mesmo Brasil onde as pessoas desapareciam, voltavam mudadas para sempre – com ferimentos no corpo e na alma –, ou não voltavam e nunca mais eram vistas por seus familiares e amigos.
Com meus sete anos, obviamente eu não tinha maturidade para saber o que acontecia, muito menos para que algum adulto me contasse sobre a realidade do País. Mas, como toda criança, eu estava antenado para algumas coisas que só mais tarde fui entender.
Uma delas era a indignação do meu pai diante do que estava acontecendo. Uma vez, ouvi uma conversa meio cifrada dele com minha mãe sobre “um amigo lá da fábrica que sumiu e deixou esposa e quatro filhos desamparados”. Minha mãe achou um horror, e meu pai ficou muito bravo. Já tive oportunidade de escrever que, enquanto ele achava tudo aquilo um absurdo, meu avô (pai da minha mãe) tentava fazer com que ele não reclamasse tanto, porque algum vizinho poderia ouvir e denunciar meu pai à polícia. Ambos estavam certos, ambos tinham razão, cada um com sua postura.
Naquele ano, o eterno Roberto Carlos lançou um LP de grande sucesso – mais um! –, que trazia músicas como “Detalhes” (seu hino até hoje), “Todos estão surdos” e “Amada Amante”. O disco vendeu muito etc. O cantor ainda não tinha um contrato de exclusividade com a Globo e seus shows de Natal ainda não eram tradição.
Bem, Roberto sempre foi acusado pela esquerda de ser um “artista omisso”, que não falava de política, não se posicionava, não fazia canções de protesto como Chico Buarque, Gilberto Gil, Edu Lobo, Taiguara, Vandré e outros. Nesse disco, porém, o conteúdo de duas canções passou meio despercebido pelo grande público, fã do homem.
Uma delas era “Debaixo dos Caracóis dos seus cabelos”, de Roberto e Erasmo. Pouca gente se ligou que a música era uma homenagem a Caetano Veloso, então exilado em Londres pelo governo militar. Basta prestar atenção à letra para que se enxergue o que os compositores quiseram dizer com, por exemplo, “Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/Você só deseja agora/Voltar pra sua gente”, entre outros versos emblemáticos.
Lembro, porém, que seu Nilo, mesmo não sendo fã de Roberto, adorava “Como dois e dois” (música do próprio Caetano), um blues cuja letra era, para mim, muito estranha e que me fazia rir quando eu a ouvia. Meu pai ficava calado, prestava atenção, viajava com a música, e eu não entendia nada da letra. Como assim “Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo/Tudo certo como dois e dois são cinco”? Para mim, não fazia sentido nenhum. E, na minha tolice de menino, eu ria. E meu pai ficava sério, ouvindo a música toda vez que era tocada.
Lógico que tudo ia mal; lógico que as coisas estavam “desertas”, áridas, amargas e difíceis de serem digeridas. Lógico que Caetano estava sendo irônico ao afirmar que estava “tudo certo como dois mais dois são cinco”. E, hoje, sabendo do que sei sobre aqueles tempos, fico surpreso por ela ter sido liberada pela censura. Talvez porque tenham pensado que ela fosse romântica (como a maior parte das músicas que Roberto gravava e grava), falando do fim de um caso; mais provavelmente, liberaram porque não entenderam mesmo. Foram tantos casos assim naquela época!
Por que esse episódio do meu pai com essa canção ficou na minha memória afetiva? Primeiro, porque ele não era muito de mostrar emoções quanto às artes em geral. Sempre muito reservado (como já falei em outro texto), ele preferia observar, com aquele jeito calmo, que sempre foi sua característica; depois, porque, mais tarde, pude entender o que aquela música significava para os milhões de pessoas perseguidas ou que tiveram entes queridos sequestrados pela ditadura.
A música é bonita. Roberto está muito bem naquele que é considerado seu melhor disco por muita gente – fãs e críticos.
Hoje, “Como dois e dois” é uma música que ouço porque ela é boa mesmo – o retrato de uma época.
E ouço, principalmente, em homenagem ao meu pai, de quem tenho muita saudade.