SONETOS XIII – VINÍCIUS DE MORAES
24 de maio, 2026
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SONETOS XIV – CRUZ E SOUSA

No soneto desta postagem, uma reflexão sobre as aparências, desigualdades e desequilíbrios do mundo – a fartura de um lado e a privação de outro. No fim, a constatação de que o excesso não é necessariamente sinônimo de felicidade.

O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.

João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Florianópolis. Considerado o primeiro grande poeta simbolista do Brasil – responsável pela introdução do movimento no País –, empenhou-se na luta contra o racismo e pelo fim da escravatura. Era conhecido também pelos títulos de Dante Negro, Cisne Negro e Poeta Negro. Recebeu uma educação bastante requintada por parte do senhor de seus pais, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, e sua esposa Clarinda de Sousa, de quem o poeta adotou o sobrenome. O casal lhe ensinou francês, latim e grego.

No soneto que se segue, um eu lírico – jovem, mas de idade imprecisa – conversa com a mãe (a voz da sabedoria e da experiência) sobre as desigualdades que lhe causam admiração e espanto. Em sua ingenuidade, deduz que a fartura, a riqueza e a opulência sejam sempre sinônimas de ventura, alegria e felicidade. Como pode alguém, que vive em palácios, com a mesa farta e servida em baixelas de prata e de ouro, levar uma vida triste? Como pode alguém nessas condições derramar uma lágrima de pesar?

Diante da fascinação e da ilusão do filho, a mãe, sempre sábia e paciente, adverte: que ele não se deixe levar pelas aparências – mesmo com todos os bens do mundo, ainda se pode carregar uma vida de pesares e angústias. E, quanto à felicidade, ela explica ao rapaz que “a ventura não é só dos grandes”, que talvez haja esperança em uma vida “menor”, mais simples.

Os grandes, ela fala por metáfora, também choram suas tristezas… mas as escondem com o véu enganador da ostentação.

 

OS DOIS

                      (Aos pobres)

– Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza

Nesses palácios, quanta majestade;

Como essa gente há de viver, como há de

Ser grande sempre na feliz riqueza.

 

Nem uma lágrima sequer – e à mesa,

Dentre as baixelas, dentre a imensidade

Da prata e do ouro – a azul felicidade

Dos bons manjares de ótima surpresa.

 

Nem um instante os olhos rasos d’água,

Nem a ligeira oscilação da mágoa

Na vida farta de prazer, sonora.

 

– Como o teu louco pensamento expandes

Filho – a ventura não é só dos grandes

Porque, olha, o mar também é grande e… chora!

 

Vítor França Galvão
Vítor França Galvão
Ariano, professor de português e cronista, é fã de Rubem Braga, Cecília Meireles e Graciliano Ramos (na literatura), de Bruce Springsteen (na música) e Bette Davis e William Holden (no cinema). Gay desde sempre, adora chocolate, filmes clássicos e viagens - principalmente para San Francisco, na Califórnia. Ama seus irmãos e amigos e não dispensa boas e animadas reuniões com eles. Escreve como forma de tentar entender melhor as pessoas e a vida.

1 Comments

  1. Professor, nas duas frases “Nem um instante os olhos rasos d’água” e “Nem a ligeira oscilação da mágoa”, transmitem lágrimas ou choro com sofrimento e tristeza – o Eu lírico transmite uma vida repleta de prazeres e alegria. Notei que o uso repetido da palavra “Nem” reforça a ausência da dor, um sofrimento humano.

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