
No soneto desta postagem, uma reflexão sobre as aparências, desigualdades e desequilíbrios do mundo – a fartura de um lado e a privação de outro. No fim, a constatação de que o excesso não é necessariamente sinônimo de felicidade.
O termo “soneto”, nos informa o professor Massaud Moisés, em seu “Dicionário de Termos Literários”, vem do italiano “sonetto”, diminutivo de “suono”, “som”, e do provençal “sonet”, “son”, “melodia”, “canção”. Ele é uma “forma fixa”: uma composição de 14 versos dispostos em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos), nessa ordem.
João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Florianópolis. Considerado o primeiro grande poeta simbolista do Brasil – responsável pela introdução do movimento no País –, empenhou-se na luta contra o racismo e pelo fim da escravatura. Era conhecido também pelos títulos de Dante Negro, Cisne Negro e Poeta Negro. Recebeu uma educação bastante requintada por parte do senhor de seus pais, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, e sua esposa Clarinda de Sousa, de quem o poeta adotou o sobrenome. O casal lhe ensinou francês, latim e grego.
No soneto que se segue, um eu lírico – jovem, mas de idade imprecisa – conversa com a mãe (a voz da sabedoria e da experiência) sobre as desigualdades que lhe causam admiração e espanto. Em sua ingenuidade, deduz que a fartura, a riqueza e a opulência sejam sempre sinônimas de ventura, alegria e felicidade. Como pode alguém, que vive em palácios, com a mesa farta e servida em baixelas de prata e de ouro, levar uma vida triste? Como pode alguém nessas condições derramar uma lágrima de pesar?
Diante da fascinação e da ilusão do filho, a mãe, sempre sábia e paciente, adverte: que ele não se deixe levar pelas aparências – mesmo com todos os bens do mundo, ainda se pode carregar uma vida de pesares e angústias. E, quanto à felicidade, ela explica ao rapaz que “a ventura não é só dos grandes”, que talvez haja esperança em uma vida “menor”, mais simples.
Os grandes, ela fala por metáfora, também choram suas tristezas… mas as escondem com o véu enganador da ostentação.
OS DOIS
(Aos pobres)
– Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza
Nesses palácios, quanta majestade;
Como essa gente há de viver, como há de
Ser grande sempre na feliz riqueza.
Nem uma lágrima sequer – e à mesa,
Dentre as baixelas, dentre a imensidade
Da prata e do ouro – a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.
Nem um instante os olhos rasos d’água,
Nem a ligeira oscilação da mágoa
Na vida farta de prazer, sonora.
– Como o teu louco pensamento expandes
Filho – a ventura não é só dos grandes
Porque, olha, o mar também é grande e… chora!
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Professor, nas duas frases “Nem um instante os olhos rasos d’água” e “Nem a ligeira oscilação da mágoa”, transmitem lágrimas ou choro com sofrimento e tristeza – o Eu lírico transmite uma vida repleta de prazeres e alegria. Notei que o uso repetido da palavra “Nem” reforça a ausência da dor, um sofrimento humano.